Os movimentos feministas promoveram o trabalho das feministas brancas ocidentais, dando-as a conhecer ao Mundo como as únicas que lutaram pelos direitos das mulheres ao longo da história.
As feministas ocidentais desde a década de 1790 como foram Mary Wollstonecraft, Christine de Pizan e Poulain de La Barre; até ao início e final dos anos 90 como Simone de Beauvoir, Betty Friedan, Concepción Arenal, Clara Campoamor etc, ficaram na história como as grandes mulheres feministas do Mundo, invisibilizando e deixando de lado a grande contribuição para a luta pelos direitos das mulheres, levada a cabo por mulheres de outros continentes, especialmente as do Continente Africano.
Nestas comemorações do 8 de Março, dia dedicado a afirmar, promover, visibilizar e exaltar os direitos e as lutas das mulheres, é importante que a sociedade e o Mundo, conheçam o contributo de cada uma delas para que as meninas, sobretudo as meninas negras, tenham um ponto de referência e saibam que as mulheres negras africanas não se limitaram a assistir, à espera que outras defendessem os seus direitos, senão que foram sempre elas mesmas as protagonistas das suas próprias lutas.
É muito importante sublinhar aqui, que mesmo durante os duros anos de
colonização e desumanização das sociedades africanas, as mulheres negras
africanas não ficaram paradas à espera que as outras lutassem por elas. Tal foi
o caso da grande heroína e rainha angolana, Nzinga Mbandi, uma diplomata e
guerreira que exerceu um papel fundamental na defesa dos seres humanos que eram
transportados ao Brasil, especialmente com fim da escravatura. A sua luta teve
um grande impacto na vida das mulheres que, naquela altura, eram transportadas
como incubadoras de crianças, que já estavam vendidas desde o ventre das suas
mães, como escravas.
Por outro lado, convém recordar que a primeira pessoa no Mundo a criar uma
instituição de ensino superior, foi uma mulher africana. Trata-se da marroquina
Fátima Al Fihri, que no século IX, criou a Universidade de Qarawiyyi em Fez.
Poucas pessoas ouviram falar dela e do seu grande contributo para o mundo
académico. Este feito tratou de colocar as mulheres nos espaços públicos
através do acesso ao ensino superior.
As grandes guerreiras do Daomé, mulheres que formaram um exército totalmente feminino, ordeiro e invencível, deram a conhecer-se à sociedade, graças à luta imparável dos movimentos pela recuperação da história e da memória negra nos Estados Unidos, que se empenharam em trazer o seu legado à sociedade, impedindo desta forma que como as outras, ficassem na invisibilidade.
De igual modo, não é feita qualquer referência à Rainha Ashanti, uma impressionante política, diplomata e gestora do reino de Ashanti, atual Ghana. O mesmo acontece com a Rainha Nandi dos Zulus da África do Sul, a Rainha Ranavalona de Madagáscar e muitas outras grandes africanas. Rainhas e heroínas africanas de quem as crianças pelo Mundo fora, nada sabem sobre o seu trabalho e contributo para o feminismo. Mulheres que até antes da colonização europeia em África, dirigiam os seus reinos, casas, economias, política e procriavam por imperativo biológico.
Intencionalmente, o feminismo ocidental tem historicamente negligenciado as reivindicações das mulheres negras e a sua história. A luta feminista de qualquer mulher negra africana não termina com a igualdade entre homens e mulheres ou com a quebra de qualquer tecto de vidro; a luta feminista das mulheres negras africanas é extremamente interseccional. As mulheres negras são atravessadas pelo racismo, um racismo que deve ser tido em conta de forma transversal nas lutas feministas ocidentais e nas políticas públicas de gênero, porque afinal, o que lhes empurra a essa discriminação, não é apenas o facto de serem mulheres, mas também o facto de serem mulheres negras, em sociedades racistas.
O feminismo ocidental, se quisesse ser representativo de todas as mulheres, teria de incluir nos seus manifestos de igualdade toda a violência que afecta as outras mulheres do Mundo. Não se deve esquecer que, atualmente, ainda há muitas mulheres que sofrem de mutilação genital, mulheres que são obrigadas a casar-se sendo ainda crianças, mulheres que trabalham e fazem produzir a terra, mas não têm direitos sobre ela, mulheres que sofrem de práticas como o esmagamento dos seios, a rutura de fístula e vivem completamente submetidas a práticas culturais que ainda ignoram os seus Direitos Humanos. O feminismo ocidental tem a obrigação de acompanhar, apoiar e sustentar as lutas das mulheres feministas negras africanas contra todas estas práticas.
Por outro lado, a partir da Europa, é necessário olhar para as mulheres migrantes de todas as origens, como iguais, como aliadas e não como “as outras”, as que estão e devem permanecer numa escala inferior. A subvalorização dos saberes das mulheres migrantes é visível. A hipersexualização das mulheres negras, a invisibilização dos seus contributos em todas as esferas da vida e a feminização da pobreza é mais profunda ainda, quando para além de ser mulher, também se é negra ou racializada.
É evidente que ainda há muito a fazer para garantir que o valor das mulheres negras africanas seja reconhecido. Mulheres negras africanas, como a queniana Wanghari Mathaai, laureada com o Prémio Nobel, a ex-presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf, a economista nigeriana Okonjo-Iweala, escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie, a Presidente da Namíbia Netumbo Nandi Ndaitwah, a Presidente da Tanzânia Saumia Hassan Suluhu, as desportistas como Rebeca Cheptegei, a seleção feminina angolana de andebol varias vezes laureada, as grandes jogadoras de futebol africano, as artistas Miriam Makeba, Ivonne Chaka-Chaka,a angolana Lourdes Van-Duném... e muitas outras mulheres que, sem medo, quebraram os tectos de vidro na política, no desporto, na cultura e noutras áreas, são exemplos que devem ser tornadas visíveis.
A exigência das mulheres negras africanas neste 8M, é a de serem tidas em conta
como aliadas e de serem tornadas visíveis, para que a luta feminista possa ser
global, de todas e para todas.
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