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A Prudência da Fúria: Um Carnaval de Barrigas Vazias - Denilson Duro

 Ah, o Carnaval! Essa magnífica celebração da alegria, da cultura e do estômago vazio. Num país onde a fome ainda é uma coreografia bem ensaiada no quotidiano de muitos, nada mais prudente do que gastar energia a desfilar sob o sol escaldante, de barriga vazia, ao som de músicas que prometem um futuro melhor – mas apenas se for no próximo desfile.

Segundo a Revista XAA, o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros registou vários casos de desmaios durante as festividades, provocados pela falta de alimentação. Mas não há motivo para alarme! O governo, sempre atento, sugere uma solução inovadora: água e frutas. Que visão estratégica! Nada como uma rodela de laranja para sustentar um dia inteiro de desfile. A banana torna-se o prato principal e, quem sabe, um gole de água substitua um almoço completo. É a gastronomia carnavalesca da resistência!

É realmente inspirador ver a paixão do povo, entregando-se à festa com a energia de quem não tem mais nada a perder – literalmente. Os desmaios? Ora, fazem parte do espectáculo! O próprio corpo entra na dança e rende-se ao samba da hipoglicemia. Para quê comida, quando se pode ter adrenalina?

E o investimento na cultura, esse pilar sagrado da sociedade? Ah, que maravilha! Um espectáculo que recebe financiamento suficiente para garantir um desfile de cores e ritmos, mas nunca o suficiente para que os artistas possam viver exclusivamente da sua arte. Afinal, viver do Carnaval é para quem tem estômago… cheio.

Enquanto isso, do outro lado da avenida, as autoridades e os patrocinadores assistem confortavelmente ao espectáculo, brindando com bebidas finas e proferindo discursos inflamados sobre a importância da cultura. Afinal, nada diz mais "nós valorizamos a nossa gente" do que um desfile onde os participantes desmaiam por inanição.

Que venha o próximo Carnaval! E que seja tão vibrante quanto os protestos silenciosos dos corpos exaustos que tombam no asfalto quente. Porque, no fim, a verdadeira fantasia não está nos trajes coloridos, mas na ilusão de que se pode viver de festa quando se morre de fome

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