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A crise do processo da autoconstrução dirigida em Angola: Uma Análise Reflexiva - Afonso Tchikwala David

 A autoconstrução dirigida surgiu em Angola como uma estratégia governamental para mitigar o déficit habitacional e promover o acesso à moradia digna para a população de baixa renda.

No entanto, o modelo enfrenta desafios estruturais, legais e socioeconômicos, comprometendo sua eficácia e gerando uma crise que reflete a fragilidade das políticas de ordenamento urbano no país.

1. O Conceito de Auto Construção Dirigida

O modelo de autoconstrução dirigida baseia-se na atribuição de terrenos urbanizados pelo Estado, com infraestrutura básica, para que os beneficiários possam edificar as suas casas de forma progressiva, conforme suas condições financeiras. A intenção é reduzir o défice habitacional, promovendo um crescimento urbano ordenado e sustentável.

A Lei de Terras e Ordenamento do Território (Lei n.º 9/04, de 9 de Novembro) e a Lei de Bases do Ordenamento do Território e do Urbanismo (Lei n.º 3/04, de 25 de Junho) estabelecem princípios para a ocupação do solo e urbanização, enfatizando a necessidade de planeamento e regulação.

2. Desafios e Contradições do Processo

Apesar dos princípios bem definidos, a implementação da auto construção dirigida tem sido marcada por diversos problemas, que agravam a crise urbana no país:

2.1. Acesso Deficiente à Infraestrutura

Embora o Estado se comprometa a fornecer infraestrutura básica (água, eletricidade, saneamento e vias de acesso), os loteamentos carecem de serviços essenciais, forçando os moradores a dependerem de soluções precárias.

2.2. Burocracia e Atrasos na Legalização de Terrenos

O artigo 37.º da Lei de Terras prevê a regularização de terrenos urbanos, mas a realidade mostra que muitos beneficiários esperam anos para obter títulos de direitos de superfície. Esse atraso cria insegurança jurídica e favorece ocupações informais.

2.3. Especulação Imobiliária e Informalidade

A distribuição de terrenos muitas vezes beneficia indivíduos sem real necessidade habitacional, que os revendem ilegalmente, contribuindo para a especulação imobiliária. Isso contradiz o objectivo do programa, que é fornecer moradia acessível às famílias de baixa renda.

2.4. Falta de Acompanhamento Técnico

A construção progressiva exige orientação técnica para garantir padrões mínimos de qualidade e segurança. No entanto, a ausência de fiscalização leva à construção de habitações precárias, muitas vezes sem respeitar normas de engenharia e urbanismo.

2.5. Urbanização Precária e Expansão Desordenada

A ocupação dos terrenos ocorre sem um planeamento efectivo, resultando em bairros sem estrutura adequada, com ruas estreitas e falta de espaços públicos. Essa expansão desordenada dificulta a posterior implementação de infraestruturas.

3. Impactos Sociais e Econômicos da Crise

Os problemas no processo da autoconstrução dirigida geram consequências graves para o desenvolvimento urbano e social:

• Crescimento de assentamentos precários, elevando o risco de marginalização social.

• Redução da qualidade de vida, devido à falta de saneamento e serviços básicos.

• Desvalorização imobiliária, pois bairros sem infraestrutura perdem atratividade para investimentos.

• Aumento do custo de vida, pois os moradores precisam gastar mais com soluções alternativas de água e eletricidade.

4. Caminhos para a Solução: Reformas e Recomendações

Para reverter a crise e tornar a autoconstrução dirigida um mecanismo eficiente, são necessárias reformas estruturais e políticas públicas mais eficazes:

4.1. Melhoria na Infraestrutura e Serviços

O governo deve garantir que os terrenos sejam entregues com infraestrutura essencial completa, evitando que os beneficiários enfrentem dificuldades na ocupação.

4.2. Redução da Burocracia e Aceleração da Regularização Fundiária

A obtenção de títulos de direito de superfície deve ser simplificada, reduzindo o tempo de espera e incentivando o investimento em habitação com segurança jurídica.

4.3. Combate à Especulação Imobiliária

É fundamental implementar mecanismos de fiscalização, impedindo a venda irregular de terrenos e assegurando que os lotes sejam ocupados por famílias que realmente precisam.

4.4. Apoio Técnico à Construção

O Estado pode criar programas de assistência técnica para orientar os moradores na construção, garantindo edificações seguras e urbanização planejada.

4.5. Planeamento Urbano Integrado

Os projectos de autoconstrução dirigida devem ser acompanhados por planos urbanísticos eficientes, garantindo conectividade, espaços públicos e serviços comunitários.

5. Conclusão

A crise do processo da autoconstrução dirigida em Angola revela desafios estruturais na gestão do solo urbano, comprometendo o direito à habitação digna. Embora a legislação forneça diretrizes importantes, a falta de infraestrutura, a burocracia e a informalidade tornam o modelo ineficiente na prática.

Para transformar esse programa em uma solução real, é fundamental que o Estado adote medidas mais rigorosas de planeamento, fiscalização e apoio técnico, garantindo que a política de habitação cumpra seu papel no desenvolvimento sustentável.

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