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A Rosa, o Embondeiro e o Mar

 O sol preparava-se para mergulhar na linha do horizonte. Decorria o último mês de um ano difícil, numa terra de tantas incertezas que até o passado era imprevisível.

Apesar da situação, os seres daquela terra procuravam desfrutar da melhor maneira possível das existências respectivas, conscientes de que a finitude é tão certa e universal, que não exclui ninguém que esteja sob a pedra do céu, numa tradução literal da expressão umbundu relativa à abóbada celeste.

Tantas diferenças, tantas incertezas, mas a mesma finitude para todas as formas de existência consciente. Tal ambiente gerou um fenómeno atípico, em que espécies diferentes conseguem comunicar entre si.

Nem o mar e o vento escaparam ao fenómeno de personificação, pelo que naquela terra incerta a dor não estava destituída de voz. Como não poderia deixar de ser, na terra em que o vento fala, com a dor, estava de mãos dadas o amor. E este, também, tinha muitas vozes.

Vindo do Lumbangada, o vento passou pelo Luvili, desceu até ao Moko, abraçou o Mundundu, para depois beijar as águas límpidas da Vavayela e subir junto a costa de modo a poder contemplar a imponência dos embondeiros à sua direita e a elegante dança das palmeiras a esquerda, junto ao mar.

Seguia, pois, para norte.

Livre como só ele, pretendia atravessar o Vale do Rio Keve e apreciar o aroma dos mangais da Foz do Kwanza, cujo curso seguiria rumo ao interior, para voltar a seguir em direcção a norte nas bandas de Kangandala, com o fito de conversar com o Morro do Kabatukila sobre os novos relatos vindos dos milhares de escravizados e assassinados da Baixa de Kasanje.

Porém, o seu percurso foi interrompido por uma cena que nunca antes vira: uma rosa e um embondeiro estavam junto ao mar, com um nível de familiaridade e solidariedade que não era suposto acontecer entre realidades tão distintas.

Como se a natureza atípica do trio já não fosse diferente quanto baste, o embondeiro em questão renunciara à segurança e firmeza típica do seu género, tendo aprendido a seguir a dança da brisa, numa sensualidade e flexibilidade por que o vento se viu instantaneamente seduzido.

Juntou-se ao trio, sem interromper o evento em curso, procurando melhor compreender o que se passava.

A rosa chorava, e tanto o mar quanto o embondeiro procuravam acalentar a sua dor, oferecendo-lhe generosos pedaços de amor, sob forma de solidariedade e encorajamento.

Por que choras, rosa?

- Perguntou o embondeiro.

Tenho feito grandes esforços para partilhar o meu melhor, mas sinto-me injustiçada pelo facto de a grande maioria jamais ver que as minhas pétalas apenas existem porque também tenho espinhos. Todos apreciam o aroma e elogiam as pétalas, mas acabam por fazer questão de me lembrar sobre os espinhos.

O que posso eu fazer, se os espinhos são parte de mim? Claro que com o tempo acabarão por evoluir para novos botões, do qual aromas renovados e pétalas viçosas poderão surgir, mas até lá os espinhos são parte do meu processo.

Tocado pelo desabafo da rosa, o embondeiro sentiu-se compelido a abraçá-la. Mas, embora tenha conseguido aprender a dançar como as palmeiras, seguia sendo um embondeiro, cujos principais galhos estavam sob o solo. À vista de todos, apenas estava uma pequena parte de si.

Inconsolável, o embondeiro soltou um par das suas preciosas folhas para que estas pudessem ser levadas pela brisa do mar, até alcançarem as lágrimas da rosa.

Comovida pela sensibilidade recebida, a rosa sentiu o seu pranto transformar-se em sorriso e as lágrimas em pérolas, antes mesmo que as folhas levada pela brisa lhe fizessem chegar as palavras do mar.

Não te entristeças, rosa. Disse o mar. És real e verdadeira. És completa, do teu próprio jeito. Seria injusto pedir que nunca chores, mas podemos pedir que não derrames em vão as tuas lágrimas. Cada lágrima deitada ao chão, será menos uma gota de orvalho para adornar as tuas pétalas de madrugada, nos exactos instantes em que o luar e a madrugada se abraçam.

Tanto as lágrimas quanto o orvalho têm natureza líquida, mas o seu efeito sobre a alma é distinto.

Sentes-te injustiçada pelos outros? Esta é mais uma razão para que não sejas tu propria a agir de modo injusto para contigo. Por isso, rosa, peço-te que aproveites melhor a luz do teu sorriso e que te permitas mais vezes derramar lágrimas de alegria. Essas ajudam a vida a gerar mais harmonia.

Ora, é da harmonia que as pérolas retiram a beleza e o orvalho a esperança.

Tocada pelo gesto do embondeiro e pelas palavras do mar, a rosa deu-se conta de que aqueles dois também tinham os seus desafios, como muitos outros naquela terra em que até o passado era incerto.

Lembrou-se de que o mar é a fonte ancestral da maior parte dos seres vivos que povoam a terra, recebe as águas dos rios e coopera para a formação das chuvas, mas as pessoas tendem a associar o seu nome (Kalunga) à morte e ao desaparecimento dos milhares de irmãos vendidos por eles próprios a viajantes de terras longínquas que os levaram no porão de barcos nauseabundos.

O embondeiro sentiu a percepção da rosa, mas nada disse a ela. Tendo-se apercebido do vento, olhou-o com uma mistura de tristeza, compaixão e esperança.

O despertar da rosa para a auto-superação, lembrou-a das conversas que tivera com um corvo que há muitos anos havia encorajado o embondeiro a permitir-se ser mais flexível, como as palmeiras.

O embondeiro não se transformou em palmeira, nem aprendeu a voar como os corvos e o vento. Mas aprendeu a aproveitar as vantagens da flexibilidade e ousou permitir que parte de si seja capaz de voar, quando a vida assim o exige.

Grato por ter investido parte do seu tempo a aprender com a dor e o amor dos outros, o vento retomou o seu caminho.

A rosa não deixou de ter espinhos, mas aprofundou a consciência de que eles são parte de si. Ao invés de os encarar como defeitos ou inconvenientes, soube-lhe bem o facto de a natureza poder propiciar a que os aparentes espinhos da vida possam vir a ser um botão e gerar novas flores, algures no futuro.

O embondeiro permitiu-se tirar uma soneca, feliz por ter ajudado uma alma a sentir-se mais segura perante as incertezas da vida. Mergulhado na sua imersão, sonhou que se tinha transformado em águia e trocava carícias com o vento num ponto do ar acima de onde os corvos são capazes de voar, sem perderem os sentidos.

Teve um gozo tão profundo e verdadeiro que acabou ficando na dúvida se era uma águia que sonhara ser embondeiro, ou era um embondeiro sonhando ser águia.

O mar, como sempre, manteve-se imponente. Aparentemente preso na hesitação entre a elevação da terra firme e a profundidade dos oceanos, o mar sabia que a sua prisão era mais livres do que a maioria. Tal como consegue perceber quem tenha os olhos treinados e o coração amplo, na verdade o mar está cheio de veias e artérias, que mantêm viva a terra, acima do mal das armas e apesar da ingratidão das gentes.

Entre mudanças e incertezas, cada um dos intervenientes seguiu a sua vida, com mais amor para contrapor as dores, mais confiança em como a vida vale sempre a pena e mais tolerância para com quem diferente pareça. Afinal, na dor e na morte somos todos semelhantes.

 

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