Num país onde a democracia ainda parece caminhar com muletas, é preciso fazer uma reflexão séria sobre o que pode estar por vir. Não se trata de falar política no sentido partidário, mas de lançar um alerta para que não sejamos surpreendidos no jogo político angolano.
Vivemos numa realidade em que se presume a existência de uma distribuição
prévia de votos e de deputados, como se tudo fosse propriedade de alguém que se
considera dono de todo e de tudo. Neste cenário, o ódio mal resolvido entre o
MPLA e a UNITA continua a ditar os rumos da nossa frágil democracia, como uma
ferida aberta que nunca cicatriza.
Agora, entra em cena um novo elemento: a legalização do partido PRA-JÁ,
após várias cambalhotas judiciais e institucionais. Será apenas coincidência?
Ou será parte de uma estratégia bem calculada, um xadrez político onde cada
peça é movida para enfraquecer um rival histórico? A resposta ainda é incerta,
mas o movimento é, no mínimo, revelador.
E não para por aí. Outros partidos políticos emergem quase que mensalmente,
multiplicando siglas que, embora pequenas, podem ter um efeito devastador na
soma final dos votos — o que é normal em democracia. Neste contexto, surge um
cenário ousado, mas não impossível, da UNITA poder correr o risco real de se
tornar a terceira força política em Angola nas próximas eleições.
Sim, isso pode acontecer, ainda que por uma diferença mínima, mas
suficiente para alterar drasticamente o equilíbrio político a que estamos
habituados. Quem acha isso impossível deveria olhar para o exemplo de
Moçambique, onde movimentações silenciosas e fragmentações estratégicas já
mudaram o jogo. Angola pode não estar distante desse caminho.
Tudo isso, somado ao histórico de fraudes generalizadas em quase todas as
eleições, desenha um futuro inquietante, uma arena política que insiste em
transformar rivais democráticos em inimigos eternos.
Com um sistema judicial refém e com a ascensão de Manico no Conselho
Superior da Magistratura Judicial — que o habilita a ser o preferido do
Presidente da República para o cadeirão máximo da presidência desse órgão — o
seu histórico reforça ainda mais a luta contra quem sempre ousou questionar a
sua permanência na instância de decisão eleitoral.
O argumento que se impõe é simples: se os cidadãos e a sociedade civil
permanecerem inertes, o jogo será jogado sempre sem árbitro, e as regras serão
escritas pelos mesmos que manipulam o tabuleiro político nas fases eleitorais.
Se esse cenário ocorrer, seria aceitável apenas se decorrer de um processo
justo e transparente, ganhando a democracia. O momento de vigiar, questionar e
exigir transparência é agora, porque, quando a democracia se torna um teatro,
todos nós nos tornamos atores de uma peça onde já não escolhemos o argumento.
0 Comentários