A recente sugestão do ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, sobre a criação de uma associação de operadores industriais de bens alimentares é mais do que um gesto organizacional: é um sinal claro de que o Executivo reconhece a necessidade de alinhar as cadeias produtivas e reduzir a dependência externa. Este debate chega num momento crucial, quando Angola gasta anualmente mais de 2 mil milhões de dólares em importação de alimentos, segundo dados oficiais, drenando divisas preciosas e expondo a economia a choques externos. Hoje, somos mais de 33 milhões de consumidores, mas importamos quase tudo o que comemos. Esta realidade não apenas fragiliza a nossa balança comercial, mas também ameaça a soberania nacional. No entanto, temos todas as condições para inverter este quadro e transformar Angola num dos maiores celeiros da região da SADC e da União Africana. A pergunta é: como fazer isso no curto, médio e longo prazo?
Angola dispõe de 50 milhões de hectares de terras aráveis, dos quais menos
de 15% são actualmente explorados, além de uma das maiores reservas hídricas da
África Austral, com rios permanentes e bacias hidrográficas robustas. O país
também está estrategicamente posicionado para abastecer mercados como a
Namíbia, Zâmbia, RDC, Botswana e mesmo a África do Sul, todos com forte
dependência alimentar. Com a entrada plena nos mercados da SADC e a Zona de
Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), temos uma janela de oportunidade
única para liderar este segmento.
Para que esta viragem aconteça, é necessária uma estratégia clara e
integrada. No curto prazo, entre 2025 e 2027, é fundamental criar a Associação
Nacional de Operadores da Indústria Alimentar, conforme proposto, mas integrada
a um Plano Nacional de Soberania Alimentar, que estabeleça metas claras de
substituição de importações. É urgente disponibilizar financiamento direcionado
para os produtores nacionais via linhas de crédito específicas do BDA e da
banca comercial, com taxas bonificadas e garantias soberanas. Simultaneamente,
devem ser concluídas infraestruturas críticas como silos, armazéns e sistemas
logísticos regionais para reduzir perdas pós-colheita, que hoje chegam a 40% da
produção agrícola. Uma campanha de produção intensiva deve priorizar produtos
estratégicos como milho, arroz, feijão e soja, base da alimentação nacional e
animal.
No médio prazo, entre 2028 e 2032, Angola precisa avançar para a
industrialização e integração das cadeias produtivas. Isto inclui a criação de
parques agroindustriais regionais com acesso a energia, água e estradas,
atraindo investimentos privados para transformar matéria-prima em produtos
finais. A massificação da tecnologia e da mecanização, com irrigação
gota-a-gota, drones agrícolas e colheitadeiras, será essencial para reduzir a
dependência de factores manuais e aumentar a produtividade por hectare. Ao
mesmo tempo, programas de formação massiva de jovens agronegociantes devem ser
implementados, fomentando o empreendedorismo rural e concedendo incentivos
fiscais.
No longo prazo, de 2033 a 2040, Angola deve consolidar-se como um hub
alimentar da SADC, abastecendo carne bovina, cereais, frutas tropicais e óleos
vegetais para mercados vizinhos. A certificação internacional de qualidade
abrirá portas para exportação para a Europa, Ásia e Médio Oriente. A criação de
uma marca nacional de alimentos “Made in Angola” fortalecerá a identidade e a
confiança no mercado externo.
Esta viragem é inadiável. Actualmente, 143 unidades industriais alimentares
operam no país, mas a dependência externa continua alta. Se nada mudar,
continuaremos a exportar divisas e importar inflação. Por outro lado, se Angola
reduzir em apenas 50% as importações de alimentos até 2030, economizaremos
cerca de 1 mil milhão de dólares por ano, dinheiro que pode ser reinvestido em
infraestruturas e desenvolvimento humano. Além disso, com exportações robustas
para a SADC, poderemos gerar mais de 500 mil empregos directos e indirectos no
campo e na indústria.
Esta não é apenas uma questão económica; é uma questão de segurança
nacional, soberania e orgulho colectivo. O Governo deve liderar esta revolução
agrícola com coragem, mas também com parceria inteligente com o sector privado
e a sociedade civil. Temos a terra, temos a água, temos a juventude e agora
temos esta visão. Falta transformar esta visão em ação concreta. Se Angola
assumir este desafio com seriedade, não estaremos apenas a garantir comida na
mesa dos angolanos. Estaremos a escrever uma nova página da nossa história: a
de um país que deixou de ser dependente e passou a ser protagonista da
segurança alimentar em África.
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