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A Revolução Cultural que Angola ainda deve a si mesma (I) - Ricardo Vita

As tensões culturais, identitárias e raciais em Angola não se esgotam no debate sobre Otelo ou na tragédia de um só dia sangrento. Os casos recentes, da afirmação de José Mena Abrantes de que “o Otelo de Shakespeare nem sequer era negro, era mouro” e da escolha de José Eduardo Agualusa de apontar o 27 de Maio de 1977 como a maior tragédia nacional, servem apenas de catalisador de um problema de fundo. Por detrás deles espreita uma questão maior: a forma como a elite cultural pós- colonial angolana continua, consciente ou inconscientemente, a reproduzir exclusões simbólicas e a invisibilizar as periferias. É um espelho incómodo de como nos vemos (e não vemos) a nós próprios enquanto nação. Hoje, urge dissecar essas camadas de visão assimilada e eurocêntrica que persistem em parte da nossa elite, minimizando a negritude e tratando com condescendência as vozes fora do cânone estabelecido. Só assim poderemos libertar o imaginário cultural de Angola das amarras coloniais e edificá-lo sobre bases verdadeiramente plurais e descolonizadas.

Elites culturais e periferias invisíveis: o legado da exclusão pós-colonial
A continuidade de certos esquemas de exclusão simbólica nas artes e letras angolanas sugere que a independência política não significou, por si só, independência cultural plena. Muitos dos nossos fazedores de cultura consagrados, formados no final da era colonial ou nos primeiros anos pós- independência, carregam ainda uma bagagem estética e ideológica que tende a centralizar uma só Angola, a de Luanda e das camadas letradas, em detrimento das múltiplas Angolas existentes. Assim, mesmo após quase meio século de soberania, ainda vemos uma narrativa cultural dominada por uma minoria privilegiada, ao passo que as vozes das periferias, sejam elas geográficas (províncias distantes, musseques urbanos) ou sociais, permanecem em segundo plano. O episódio de Mena Abrantes e Otelo é exemplar. Ao embranquecer simbolicamente uma personagem negra canónica, negando o seu carácter racial, Mena alinhou-se inadvertidamente a um velho hábito eurocêntrico de reinterpretar, à nossa maneira, heróis que não cabem no molde colonial. Ironicamente, fê-lo num país de maioria negra, libertado do colonialismo há décadas, reciclando argumentos que outrora serviram para confortar preconceitos europeus do século XIX. Essa postura lança luz sobre a miopia de parte da nossa elite: certa tendência de alguns intelectuais em Angola de julgarem os temas identitários sob lentes empoeiradas, como se afirmar a centralidade do negro ou do africano fosse “modismo” importado e não legítima reivindicação local. A consequência é um fosso geracional e ideológico cada vez mais evidente.

De um lado, uma velha guarda que se vê como guardiã da “verdadeira” cultura angolana; do outro, uma nova geração de angolanos emancipados, muitos formados já em época pós-guerra, expostos ao mundo, que questionam esses pressupostos elitistas e eurocêntricos.

Essa contradição manifesta-se também na forma como as periferias culturais continuam a ser invisibilizadas. Historicamente, a construção da identidade nacional angolana privilegiou narrativas urbanas, em português, centradas na luta anti-colonial liderada sobretudo por elites do litoral. As contribuições das regiões do interior, das comunidades rurais ou dos grupos étnicos menos representados no poder raramente obtiveram o mesmo destaque. Hoje, passado tanto tempo, ainda se nota essa assimetria: a memória colectiva oficial foca-se em eventos e figuras próximas do círculo do poder, enquanto as tragédias e heroísmos vividos pelo povo comum nas margens do país tendem a ser tratados como rodapé da História. Foi preciso um Agualusa afirmar que “o 27 de Maio foi o evento mais trágico da história angolana” para se revelar outro ângulo dessa condescendência elitista: sem negar o horror desse massacre, perguntar porque razão só esse seria “o pior” expõe a memória seletiva de parte da elite, que hierarquiza sofrimentos conforme a proximidade geográfica e social – Luanda e seus círculos – ignorando outras tragédias monumentais enfrentadas pela maioria anónima. Para quem viu a aldeia dizimada no leste durante a guerra civil, para quem passou fome escondido no mato do Kuando Kubango ou perdeu tudo no êxodo do Huambo, talvez outrasdatas sejam igualmente ou mais trágicas na vivência colectiva. No entanto, essas dores do povo raso raramente obtêm o carimbo de “tragédia nacional” nos livros ou pronunciamentos oficiais, num claro sintoma de desconexão entre a Angola real e a Angola da elite. Reconhecer essa invisibilização das periferias é fundamental. Não se trata de negar o valor dos nossos escritores, artistas ou historiadores – muitos deles deram contributos inegáveis para a cultura angolana –, mas de questionar: em que medida a visão deles, frequentemente forjada num ambiente urbanizado, lusófono e relativamente privilegiado, deixou de fora as vozes subalternas? Quantos contos, músicas, danças e memórias ficaram à margem por não encaixarem nos critérios estéticos ou ideológicos dominantes? Enquanto as periferias – entendidas aqui tanto como os bairros pobres das cidades, quanto as províncias distantes do centro do poder – forem apagadas do imaginário oficial, a cultura nacional continuará fragmentada e incompleta. É preciso trazer essas margens para o centro do palco, iluminá-las, ouvi-las, validá-las.

Media, escolas e instituições: perpetuar ou romper o imaginário herdado?

Nenhum imaginário dominante se mantém sem instrumentos de difusão. Em Angola, os media públicos, o sistema de ensino e as instituições artísticas foram – e ainda são – peças-chave tanto na perpetuação dos antigos paradigmas como na possível ruptura destes. Perguntemo-nos: estão eles a romper com os imaginários coloniais herdados ou, pelo contrário, a renová-los sob nova roupagem? Por muito tempo após a independência, o conteúdo cultural que consumimos continuou excessivamente importado ou filtrado pelos padrões externos. As escolas angolanas, por exemplo, privilegiaram durante décadas a história vista pela lente luso-tropical, relegando a segundo plano os nossos autores e as narrativas genuinamente africanas. Não é segredo que gerações de estudantes aprenderam Camões e Pessoa, mas desconheciam as lendas da Kianda ou os contos dos sobas. Também as línguas nacionais – Umbundu, Kimbundu, Kikongo, Tchokwe, entre outras – permaneceram ausentes da sala de aula, mesmo sendo maternas para a maioria da população. O resultado desse vácuo curricular foi a manutenção do português como único veículo do “saber legítimo”, reforçando um velho ideal assimilacionista onde o conhecimento válido parece vir apenas pela língua do colonizador. Só agora, quase meio século depois, se começa timidamente a corrigir o rumo: prevê-se finalmente inserir as línguas nacionais no currículo do ensino primário a partir de 2025-2026. É uma iniciativa louvável e necessária – mas tardia. O simples facto de celebrarmos esta decisão em 2025 revela quão prolongada foi a negligência e quão profunda a marca do colonialismo na política educativa angolana.

Na esfera dos media públicos, o cenário não foi muito diferente. A Televisão Pública de Angola (TPA) e demais canais estatais privilegiaram, por anos, conteúdos alinhados a uma estética e visão de mundo exógenas: enlatados estrangeiros, telenovelas brasileiras no horário nobre e programação que pouco refletia a riqueza cultural das nossas regiões. Até há bem pouco tempo, era mais fácil assistir na TV a uma peça de teatro clássica europeia legendada do que a encenações em línguas nacionais ou a contadores de histórias locais. E quando a TPA produzia ficção ou entretenimento, muitas vezes os modelos seguiam fórmulas importadas, reforçando um ideal de vida “moderno” associado ao estilo de Lisboa ou Rio de Janeiro, raramente exibindo o quotidiano real de um bairro de Luanda ou de uma aldeia no Bié. Essa opção editorial ajudou a perpetuar imaginários coloniais – ainda que inadvertidamente. Por exemplo, ao censurar o título de uma peça como A Orgia de Enrique Buenaventura por julgá-lo impróprio, a TPA demonstrou um zelo moral talvez herdado de uma mentalidade conservadora colonial, em vez de aproveitar para debater abertamente o conteúdo da obra e sua relevância para nós. Ao mesmo tempo, faltou-lhe audácia para investir em conteúdos de raiz local ou panafricana – como sugeri na altura, promover Otelo ou outras obras com ressonância na nossa história – que poderiam educar e entreter. Ficou patente que a nossa TV pública caminhava sobre um fio estreito: ou importava valores externos acriticamente ou os censurava por pudor, mas raras vezes olhava para dentro em busca de inspiração.

As instituições artísticas e culturais oficiais – museus, teatro nacional, arquivos, centros culturais estatais – também têm responsabilidade. Em vez de serem espaços vibrantes de diálogo entre todos os angolanos, muitas vezes tornaram-se vitrinas de uma cultura “oficial” congelada. Eventos culturais promovidos pelo Estado tendem a exaltar ou folclorizar certos elementos (como dança tradicional ou música folclórica) de forma decorativa, sem contudo conferir poder efectivo às comunidades que lhes deram origem. Quantos festivais “nacionais” trazem grupos folclóricos do interior para actuarem em Luanda por um dia, apenas para depois devolvê-los ao esquecimento? Da mesma forma, nas escolas de artes e nos currículos universitários de humanidades, durante muito tempo estudou-se mais a estética europeia clássica do que as artes africanas ou as manifestações contemporâneas emergentes das nossas ruas. Não surpreende, portanto, que alguns dos nossos artistas formados nesses circuitos hesitem em legitimar as expressões das periferias – afinal, eles próprios pouco contacto tiveram com elas nos seus percursos formativos. Contudo, aqui também se vislumbram brechas para a mudança. Nos últimos anos, a abertura política lenta mas real que Angola viveu tem permitido algum arejamento institucional. Pela primeira vez, autoridades começam a reconhecer erros do passado no campo da memória cultural: a criação de comissões de reconciliação histórica e a recente entrega de ossadas de vítimas do 27 de Maio às famílias são sinais de que certos silêncios estão a ser quebrados. No campo educativo e mediático, multiplicam- se debates sobre a necessidade de reformar conteúdos – seja incluindo Nzinga Mbandi, Mandume e outros heróis africanos nos manuais, seja dando espaço na rádio e TV a programas em línguas nacionais ou a expressões juvenis urbanas. Instituições como o Instituto das Línguas Nacionais e alguns departamentos universitários de estudos angolanos batalham por legitimidade e apoio para expandir suas pesquisas e iniciativas, desafiando a indiferença burocrática. A questão que se coloca é se essas iniciativas serão suficientes para virar a maré ou se permanecerão gotas num oceano de status quo. A escola, os media e as artes podem ser ferramentas poderosas de descolonização mental – mas apenas se assumirem corajosamente esse propósito, em vez de servirem de caixa de ressonância para os velhos complexos.

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