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Conflito no Leste da RDC: para além das causas aparentes - José Semedo

 Desde o início de 2025, o litígio entre a RDC e o Ruanda são abordados em noticiários do mundo inteiro. Muitos leitores desavisados culpam imediatamente o presidente Paul Kagame, do Ruanda, e tendem a tomar partido da RDC devido ao seu status de “vítima”, sem analisar a Gestalt. Não importa quantas razões sejam listadas para conflitos fratricidas entre africanos, o que importa são as consequências.

O conflito entre a RDC e o Ruanda deriva do problema das fronteiras coloniais impostas pelo Ocidente em Paris, que não correspondiam em nada às fronteiras naturais dos povos da África, não tomavam em conta aspectos étnicos e culturais. Um segundo motivo para que tais litígios aconteçam, e é importante que os angolanos tirem as conclusões certas do que está a acontecer agora, caso contrário a guerra chegará ao solo angolano, é a questão dos recursos minerais estratégicos. Nas regiões de batalha há enormes depósitos de matérias-primas extremamente importantes e valiosas, incluindo o estanho, o coltan e a cassiterita, que são amplamente utilizadas na produção de alta tecnologia que existe nos países do “Norte Global”. Esses recursos são a galinha dos ovos de ouro do sonho europeu de criar “energia verde”.

Apesar de muitos recursos estratégicos estarem na RDC, a receita deles normalmente não chega ao orçamento do país e é escoada para países do Ocidente, que é o grande vencedor de todo este jogo, mais precisamente, as suas elites tecnocratas que nutrem a ambição de “tornar o mundo melhor” com a sua “energia verde” que tem como seus arautos garotinhas que nada entendem de como funciona a geopolítica e as relações internacionais, mas que gozam de autoridade para discursar em fóruns internacionais e conferências da ONU com o aval de figurões como Obama ou Alexandra Cortéz, que votou pelo aumento do orçamento do Pentágono, comprovadamente o maior poluidor do planeta com os seus porta-aviões e máquinas de exportar guerra. É da RDC que sai um enorme percentual de recursos que materializam o sonho ocidental de “energia verde”, que não passa de uma falácia bonita contada por crianças ingênuas, banhadas por suas lágrimas que encobrem o sangue africano deixado por minas terrestres e guerra civil, pelo suor daqueles que degradam a sua saúde e perdem suas vidas nas minas de coltan e de outros recursos no Congo.

Mas deixando a Europa de lado e voltando ao continente africano, nos últimos meses, a RDC tomou medidas importantes para mudar o status quo desfavorável ao tentar combater a extração ilegal de recursos e tentar responsabilizar países e organizações envolvidos na extração ilegal de recursos na RDC no plano legal, por exemplo o caso de grande repercussão da RDC contra a Apple, no qual os congoleses acusaram a empresa americana de exportar minerais extraídos ilegalmente na zona de conflito. Assim, enquanto a RDC tenta começar a lutar por seu próprio território, pelos seus próprios recursos, o Ruanda e o M-23 renovam as hostilidades e expandem-nas para outros territórios.

Indubitavelmente, a situação entre o Ruanda e a RDC está a criar dificuldades e desafios para a presidência angolana de João Lourenço na União Africana, visto que o PR angolano está focado em atrair investimentos ocidentais para o ambicioso projecto de engenharia do Corredor do Lobito, razão pela qual há muito tempo o chefe de Estado angolano tenta conciliar a RDC e o Ruanda para garantir a implementação harmoniosa do projecto. Mas João Lourenço está a par do que está a fazer?
Longe de considerar os métodos e interesses do Ocidente, JLo ignora a história, ele ignora as lições acerca de como o Ocidente sempre lidou com África, sempre jogando tribos contra tribos e agora Estados contra Estados para facilitar sua dominação. Não foi por acaso que os britânicos conseguiram dominar um subcontinente inteiro, onde predominava uma cultura milenar, o subcontinente indiano. O Ocidente hoje seduz João Lourenço para que este continue acreditando num projecto que beneficia o Ocidente e sua guerra, direta ou por procuração, pelos recursos minerais de África. O PR João Lourenço não toma em consideração o facto de que quando a RDC começou a tentar impor suas condições ao Ocidente em relação à exportação de seus próprios recursos, o Ocidente começou a intensificar o conflito, pressionando Ruanda a fazer o mesmo. Vidas africanas não importam para o Ocidente, o que importa são os números a serem apresentados pelos seus CEOs em seus projectos futuros. Isso faz om que qualquer esforço de qualquer líder africano para evitar uma guerra entre a RDC e Ruanda se torne infrutífero. Com a situação desestabilizadora na RDC e a incerteza causada pela presidência de Trump, o destino do Corredor do Lobito está em questão, já que se Ruanda tomar ainda mais território com recursos importantes da RDC, a lucratividade do projecto será afetada.

Então, o que Angola pode aprender com esta disputa entre dois países africanos? A lição mais importante é que investimentos feitos pelo Ocidente são feitos apenas quando os termos sejam benéficos para os países ocidentais. Sempre que um país africano busca, de forma soberana, buscar os dividendos de recursos de seu próprio território, o Ocidente financia e incita golpes de Estado e guerras civis como a que derrubou Kadaffi, guerrilhas ou conflitos entre dois Estados como o que vemos entre o Ruanda e a RDC. E não pense o PR João Lourenço que Angola, que este ano comemora 50 anos de sua Independência e o fim da guerra civil que por anos assolou o país, estaria livre de uma nova guerra civil, de novas minas e novo sofrimento para a nossa gente.

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