A Pátria é um lugar de origem, é uma Nação ou um País em que cada pessoa nasceu e de que é cidadão. Em termo figurativo, a Pátria é um lugar onde uma pessoa se sente melhor ou em relação ao qual nutre um sentimento de pertença. O sentimento de pertença é um factor sagrado do patriotismo inerente da pátria que anima o espirito de amor, de entrega e de defesa da sua pátria em todas as circunstâncias.
O amor à pátria é um dever patriótico que obriga a cada cidadão sujeitar-se
à pátria, servi-la e ser parte integrante dela, usufruindo dos direitos,
deveres e obrigações. Nesses termos, o Estado, como pessoa de bem, não pode nem
deve agir na arbitrariedade, violando os direitos civis e políticos da
cidadania. Por isso, os «feitos» em prol da Pátria protagonizados pelos nacionalistas
são sagrados e integram-se nos direitos políticos e civis, dos quais um Estado
democrático devem respeitar e devem consagrar justamente e em pé de igualdade,
sem exclusão e sem discriminação de ordem partidária, étnica ou racial.
Lembro-me que, em 1998, no quadro do Processo da Paz e da Reconciliação
Nacional, na Assembleia Nacional aprovamos uma Resolução sobre o “Estatuto
Especial” do Presidente da UNITA, Dr. Jonas Malheiro Savimbi. A Resolução foi
aprovada por uma maioria absoluta. Este procedimento legal provocou uma revolta
veemente do mais velho Lúcio Lara. Mergulhou-se em lagrimas; gemendo de raiva e
de ódio – gritando: Como é possível atribuir um «Estatuto Especial» ao Jonas
Savimbi? Gritava em voz alta perante as câmaras, a emitir a Sessão Plenária em
direto.
Eu fiquei escandalizado e chocado vendo esta cena triste, carregada do
espirito excessivo de ódio contra o seu concidadão, conterrâneo dele da mesma
tribo, ambos do planalto central, do povo Umbundo. Isso a ser protagonizado
publicamente por um dirigente senhor do MPLA, nacionalista e amigo do
Presidente António Agostinho Neto, uma personalidade respeitada, que celebraram
em conjunto os Acordos de Alvor com Álvaro Holden Roberto e com Jonas Malheiro
Savimbi, Presidentes da FNLA e da UNITA, respectivamente.
Note-se que, na altura estávamos em pleno processo da paz e de
reconciliação nacional que exigia uma maior aproximação entre as partes em
conflito. Portanto, esta postura do Lúcio Lara indicava explicitamente o grau
de ódio, de antagonismo, de belicismo e de revanchismo que habitavam no seio da
liderança do MPLA. Um espírito forte impregnado do rancor, do delírio de
grandeza, da intolerância e da exclusão. Afinal, o objetivo deles não era a paz
e a reconciliação nacional, mas sim, a morte do Jonas Savimbi e a destruição da
UNITA.
Isso para dizer que, eu não fiquei surpreendido com a lei que visa a «exclusão»
do Álvaro Holden Roberto e do Jonas Malheiro Savimbi das medalhas comemorativas
dos 50 anos da independência. Porque, na minha óptica existe um«preconceito»em
Angola que tornou-se um tabu, que acredita na omnipotência do MPLA, como sendo
um poder divino e eterno, ao qual todos os angolanos devem-se sujeitar. Noutras
palavras, o MPLA é o «dono» de Angola.
Essa filosofia assenta na «hegemonia etnocultural» que descreve a supremacia e a influência de um grupo ou de uma classe social que prevalece sobre os outros e tem o poder absoluto de definir o contexto nacional, a cidadania, as normas, os costumes, os valores, as crenças e os símbolos da Nação e do Estado. Nessa doutrina, os Heróis da Pátria devem pertencer a um grupo de famílias ou a uma classe social. Este sistema assemelha-se à monarquia absoluta.
Teoricamente, essa Filosofia apoia-se no «etnocentrismo», segundo o qual a «supremacia étnica» de um determinado povo, e as suas crenças, tradições, costumes e valores culturais devem servir de «Modelo» da Sociedade e do Estado. Isso significa que, a matriz sociocultural e étnica de um Partido político, de carácter monolítico e centralizado, deve exercer o monopólio económico e a hegemonia política. O fundo da questão consiste no facto de que, os símbolos, por natureza, representam os valores históricos, políticos e culturais, e exercem influências enormes na tomada de consciência humana e na preservação da memória coletiva de um Povo ou de uma Nação.
Em termos concretos, os três Movimentos de Libertação Nacional
(FNLA/MPLA/UNITA) tiveram as «bases sociais etnolinguísticas» distintas. Embora
as suas identidades políticas e militâncias partidárias fossem de carácter
multiétnica, multicultural e multirracial. No caso específico do MPLA, a sua
base social sempre esteve identificada com o povo Ambundu. Ao passo que, a FNLA
estava identificada com o povo Kikongo, e a UNITA, com o povo Umbundu.
Este fenómeno sociocultural tem tido implicações muito profundas sobre a
nacionalidade angolana cuja matriz etnocultural assenta no Reino do Ndongo e de
Matamba, cujos soberanos tinham o titúlo de “Ngola,” de onde deriva o nome de
Angola. Este factor histórico tem um impacto psicológico enorme sobre o povo
Ambundu, traduzindo-se no «complexo de superioridade etnocultural», que
representa, neste caso, a matriz sociocultural do MPLA.
Só que, no ponto de vista histórico e sociológico, este tabu não corresponde
a verdade. Por seguintes factos históricos: o Reino do Ndongo, em certa época,
foi dominado (1556) pelo Reino do Kongo, ao qual pagava os tributos e o qual
nomeava e empossava os Príncipes do Reino do Ndongo. Por outro lado, o Reino de
Matamba pagava os tributos ao Império Lunda-Chokué – em Xá-Mutemba.
O mesmo Reino do Ndongo tinha afinidades étnicas com o Reino do Bailundo,
através das etnias Ambundu localizadas ao longo do rio Cuanza. A este respeito,
uma vez, o malogrado Mendes de Carvalho (Uanhenga Xitu), dizia-me o seguinte:
“Não percebo porque Jonas Savimbi inclina-se mais ao lado de Ovimbundu, da
tribo do seu pai, do que do lado da sua mãe, que é Ambundu.” Além disso, notei
que, existem muitas famílias Umbundu com nome de «Ngola». O meu avô, Linangua
lya Nguluka, contava- me que: “Va Kangombe ka Yambi nava Ndongo muvushoko
vwavo.” Traduzido em Português: Os Kangombe ka Yambi (Ovimbundu) e os Ndongo
(Ambundu) são da mesma família. Neste contexto, existe a proximidade entre o
povo Nganguela e o povo Ovimbundo. Enquanto, o povo Chokué e o povo Nganguela
são da mesma matriz étnica – do Império Lunda-Chokué.
Votando ao assunto, no meio dos três Reinos, acima referidos, existiam os
Jagas da Etnia Yaka e os Jagas da Etnia Imbangalas, que formaram o Reino de
Kassanje, situado ao longo do rio Kuango. Os Jagas eram um Povo aguerrido,
celebrou múltiplas Alianças e travou guerras sucessivas contra os Portugueses e
contra os Reinos do Ndongo, do Kongo e da Lunda-Chokué. Portanto, a supremacia
etnocultural, que habita nas mentes da liderança do MPLA, é uma pura falácia.
Aliás, os fundadores do MPLA, pelo que eu saiba, não foram nativos Ambundu –
originários do Reino do Ndongo e de Matamba.
Pois, a verdade é que, o Reino do Ndongo assumiu o protagonismo nos
contextos do tráfico negreiro; nas guerras de conquistas; na ocupação dos
territórios do interior pelas tropas portuguesas; e na colonização do país.
Assim, o Reino do Ndongo transformou- se num bastião e num epicentro do
comércio de escravos. A expansão colonial aos Reinos do Interior do País partiu
do Reino do Ndongo, onde Portugal estabeleceu a «aliança estratégica» com os
soberanos Ngolas, após a morte da Rainha Nzinga Mbandi, em 1663, no Reino de
Matamba – em Malange.
Isso mostra-nos claramente o papel fundamental que o Reino do Ndongo
desempenhou durante a época colonial. Este fenómeno (de aliança estratégica)
influenciou sobremaneira o processo da descolonização de Angola. Além disso,
este elemento histórico ainda tem relevância em relação à definição do poder
político em Angola. Logo, sem tabus, é conveniente perceber bem esta postura do
MPLA, em termos da manutenção do poder político através da exclusão de outros
partidos nacionalistas, que combateram o colonialismo português com armas na
mão, na clandestinidade, na diáspora, nas cadeias e no Campo de Concentração do
Tarrafal, em Cabo Verde.
Na verdade, o que acontece é que existe a manipulação dos factos
históricos, utilizando o povo Ambundu de uma Grande Muralha, que serve
de«Escudo e de Trampolim» para dividir e reprimir os angolanos com fim de
manter-se no poder. Em contraste, se de facto o Reino do Ndongo e de Matamba
fossem valorizados, como uma base sociocultural do MPLA, como que os túmulos da
Rainha Nzinga Mbandi e de Ngola Kiluanje ficaram abandonados e o Reino do
Ndongo ficou amordaçado, reprimido e destruído?
No fundo, existe uma Estratégia como do Imperador Romano Júlio César, que afirma: «divide et impera». O Imperador Francês Napoleão Bonaparte tinha a mesma Estratégia, que diz: “divide ut regnes”. Portanto, o João Lourenço está a usar a mesma Estratégia de «dividir» os grupos étnicos angolanos, incutindo nas diferentes grupos étnicos o espírito de ódio, de revanchismo e de complexo de grandeza. Por outro lado, induzir noutros grupos étnicos o medo, o desespero, a inferioridade e a desvalorização da sua história, dos seus feitos, dos seus símbolos, das suas contribuições á Pátria, dos seus valores e das suas culturas. Visando, deste modo, semear a inimizade, a desconfiança, a fragmentação e a desagregação da sociedade angolana.
Em síntese, a política de exclusão das figuras históricas, como de Holden Roberto e de Jonas Savimbi tem consequências devastadoras sobre a consciência dos povos dos antigos reinos do Ndongo, do Kongo, do Bailundo e do Império Lunda Chokué, que representam mais de 87% da população de Angola.
Acima de tudo, são territórios onde incidiu o tráfico de escravos; são os reinos que estiveram na linha da frente contra a ocupação e colonização portuguesa; são os reinos que foram transformados em fontes principais da mão-de-obra barata do regime colonial; foi nesses territórios vastos em que incidiu a guerra-fria e a guerra civil; são territórios dotados de abundantes recursos minerais; os mesmos territórios têm sido os alvos principais e sistemáticos de massacres e de repressões da população local pelo Partido-Estado.
Por mim, o que está em causa não é o acto de atribuição ou de não atribuição de medalhas; mas sim, o espírito de exclusão destas duas personalidades históricas, protagonistas da independência de Angola, que foi celebrado em Alvor. O mais grave é de que, isso está sendo feito à favor de pessoas estrangeiras que fomentaram a divisão do nacionalismo angolano, inviabilizaram os Acordos de Alvor e que continuam a pilhar a riqueza de Angola, em detrimento dos angolanos. Isso mostra claramente a falta do patriotismo, e a desvalorização dos Acordos da Independência, da Paz e da Reconciliação Nacional. Sem dúvida nenhuma, isso coloca o nosso país na crise profunda da identidade nacional.
O mais grave ainda, é de que, o processo democrático está em causa, sem o
suporte do Direito Internacional, que neste momento está ameaçado fortemente
pelas superpotências mundiais, que se aproximam entre elas na busca da
dominação do mundo. Portanto, esta lei das medalhas comemorativas é um arauto
que enuncia o drama das Eleições de 2027, que determinarão o futuro de Angola
nas próximas décadas. Portanto, não fiquemos distraídos com a cortina de fumo.
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