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Sobre o sentido e o propósito da existência de um Partido Político - uma chamada à vocação de Poder - Adão Ramos

A política, enquanto espaço de organização da vida colectiva, exige compromisso sério, responsabilidade histórica e coragem transformadora. No centro desse espaço, estão os partidos políticos, cuja existência é absolutamente essencial em qualquer regime democrático.

Mas afinal, por que existe um partido político? Por que fundar um? Para quê? À luz da Ciência Política, um partido político é, nas palavras do cientista político Giovanni Sartori, “um grupo político identificado por um rótulo oficial que apresenta candidatos a eleições e é capaz de colocá-los em cargos públicos através de eleições”. Já Max Weber define o partido como uma associação voluntária que visa conquistar o poder, seja através da representação política, seja através do controle directo do Estado.

Ou seja, a vocação central de um partido político é o Poder, seja para alcançá-lo, seja para mantê-lo, seja para influenciar as políticas públicas a partir dele.

Um partido que não ambiciona o Poder não é um partido político: é, no melhor dos casos, uma associação de debate ou um grupo de interesses dispersos.

Partidos não são ONGs. Enquanto as Organizações Não Governamentais (ONGs) existem para promover causas sociais, humanitárias, ambientais ou culturais, através da sensibilização, advocacia e implementação de projectos - os partidos políticos existem para governar. O seu objectivo último é chegar ao Poder do Estado para aplicar o seu programa político.

Um partido que abdica desta função está a trair a sua essência e a defraudar os seus militantes e simpatizantes.

A falta de ambição de poder, muitas vezes justificada como “humildade” ou “realismo político”, na verdade revela falta de estratégia, ausência de visão e impotência organizativa.

Não galvaniza as massas, não inspira os jovens, não granjeia a confiança dos cidadãos.

Afinal, como pode o povo acreditar numa força política que não acredita em si mesma?

Um partido que só quer existir para ter os seus dirigentes na mídia ou para participar nalguns encontros protocolares, sem um projecto real de governação, está a instrumentalizar a política, e a descredibilizar o próprio sistema democrático. Isso é grave. É irresponsável. É antiético.

Todo partido que se preze deve preparar-se para estar à altura dos mais fortes.
Mesmo que não vença sozinho, deve ter a robustez necessária para ser considerado numa eventual coligação com relevância, ou para liderar a oposição com autoridade e proposta clara.

A este propósito, recordemos Robert Michels, que desenvolveu a famosa “Lei de Ferro da Oligarquia”, segundo a qual a sobrevivência e eficácia de um partido dependem da sua capacidade de organização interna e liderança forte. Mas Michels também adverte: os partidos podem degenerar se os seus dirigentes não forem impulsionados por um verdadeiro espírito de missão política.

Que dirigentes precisamos?
Precisamos de líderes com visão, coragem, inteligência estratégica, capacidade mobilizadora e compromisso ideológico. Pessoas que saibam trabalhar colectivamente, que compreendam o seu tempo histórico, e que sejam capazes de transformar um partido numa máquina política competitiva, que inspire o eleitorado, dialogue com as massas e construa soluções para os problemas reais da nação.

Dirigentes sem ambição, sem ousadia, sem estratégia e sem capacidade de organização, simplesmente não servem para a árdua empreitada de fazer de um partido uma verdadeira opção de poder.

Por isso, deixo aqui uma chamada de atenção muito forte aos partidos que apenas querem existir, sem ousar disputar o futuro do país. Angola precisa de forças políticas sérias, comprometidas, estruturadas. A democracia precisa de alternativas reais. O povo precisa de quem deseje governar para servir, e não apenas aparecer para se justificar.

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