A política, enquanto espaço de organização da vida colectiva, exige compromisso sério, responsabilidade histórica e coragem transformadora. No centro desse espaço, estão os partidos políticos, cuja existência é absolutamente essencial em qualquer regime democrático.
Mas afinal, por que existe um partido político? Por que fundar um? Para quê? À luz da Ciência Política, um partido político é, nas palavras do cientista político Giovanni Sartori, “um grupo político identificado por um rótulo oficial que apresenta candidatos a eleições e é capaz de colocá-los em cargos públicos através de eleições”. Já Max Weber define o partido como uma associação voluntária que visa conquistar o poder, seja através da representação política, seja através do controle directo do Estado.
Ou seja, a vocação central de um partido político é o Poder, seja para alcançá-lo, seja para mantê-lo, seja para influenciar as políticas públicas a partir dele.
Um partido que não ambiciona o Poder não é um partido político: é, no
melhor dos casos, uma associação de debate ou um grupo de interesses dispersos.
Partidos não são ONGs. Enquanto as Organizações Não Governamentais (ONGs)
existem para promover causas sociais, humanitárias, ambientais ou culturais,
através da sensibilização, advocacia e implementação de projectos - os partidos
políticos existem para governar. O seu objectivo último é chegar ao Poder do
Estado para aplicar o seu programa político.
Um partido que abdica desta função está a trair a sua essência e a
defraudar os seus militantes e simpatizantes.
A falta de ambição de poder, muitas vezes justificada como “humildade” ou
“realismo político”, na verdade revela falta de estratégia, ausência de visão e
impotência organizativa.
Não galvaniza as massas, não inspira os jovens, não granjeia a confiança dos
cidadãos.
Afinal, como pode o povo acreditar numa força política que não acredita em
si mesma?
Um partido que só quer existir para ter os seus dirigentes na mídia ou para
participar nalguns encontros protocolares, sem um projecto real de governação,
está a instrumentalizar a política, e a descredibilizar o próprio sistema
democrático. Isso é grave. É irresponsável. É antiético.
Todo partido que se preze deve preparar-se para estar à altura dos mais
fortes.
Mesmo que não vença sozinho, deve ter a robustez necessária para ser
considerado numa eventual coligação com relevância, ou para liderar a oposição
com autoridade e proposta clara.
A este propósito, recordemos Robert Michels, que desenvolveu a famosa “Lei
de Ferro da Oligarquia”, segundo a qual a sobrevivência e eficácia de um
partido dependem da sua capacidade de organização interna e liderança forte.
Mas Michels também adverte: os partidos podem degenerar se os seus dirigentes
não forem impulsionados por um verdadeiro espírito de missão política.
Que dirigentes precisamos?
Precisamos de líderes com visão, coragem, inteligência estratégica, capacidade
mobilizadora e compromisso ideológico. Pessoas que saibam trabalhar
colectivamente, que compreendam o seu tempo histórico, e que sejam capazes de
transformar um partido numa máquina política competitiva, que inspire o
eleitorado, dialogue com as massas e construa soluções para os problemas reais
da nação.
Dirigentes sem ambição, sem ousadia, sem estratégia e sem capacidade de
organização, simplesmente não servem para a árdua empreitada de fazer de um
partido uma verdadeira opção de poder.
Por isso, deixo aqui uma chamada de atenção muito forte aos partidos que
apenas querem existir, sem ousar disputar o futuro do país. Angola precisa de
forças políticas sérias, comprometidas, estruturadas. A democracia precisa de
alternativas reais. O povo precisa de quem deseje governar para servir, e não
apenas aparecer para se justificar.
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