O pensamento de Joseph Stiglitz, Prémio Nobel de Economia, analisa diversamente o sistema capitalista contemporâneo, suas falhas e virtudes. É muito interessante para perceber não só a realidade dos Estados Unidos da América, mas também o mundo actual e as dinâmicas do capitalismo, onde as empresas ocupam um papel vital. É esse também o sistema que pretendemos implementar em Angola, onde a iniciativa privada, a livre concorrência e o papel regulador dos organismos públicos são vitais.
Para compreender as empresas, é crucial entender o pensamento de Michael Porter, teórico
da competitividade empresarial que evidencia o conceito de “desvantagens
institucionais e de infra-estrutura” como parte da análise do ambiente
competitivo, bem como a necessidade de melhorar os factores de base
(infra-estrutura, educação, regulação) para tornar as empresas mais eficientes.
Ora, cada realidade apresenta as suas próprias particularidades. É por isso
que, ao olharmos para as empresas angolanas, não podemos deixar de analisar os
chamados custos de contexto que tornam os investimentos em Angola fruto de
resiliência, tal é a nossa realidade social, política, económica e até
cultural.
Os custos de contexto são factores que aumentam os gastos operacionais das
empresas sem necessariamente acrescentar valor directo à sua produção. Em
Angola, esses custos são particularmente relevantes e impactam a
competitividade das empresas.
Numa reflexão conjunta com o meu amigo e cumplice intelectual, Gilberto
Luther, chegamos, conjuntamente, a identificar algumas que passo aqui a
assinalar:
1. Burocracia: Como todos sabemos, um dos sérios problemas da nossa tramitação
processual tem a ver com o excesso de burocracia, com reflexos práticos em
termos de demora em processos administrativos (como licenciamento, registo
comercial, e obtenção de autorizações); Complexidade legal e regulatória, com
mudanças frequentes e falta de clareza nas leis; Corrupção e práticas
informais, que aumentam os custos indirectos e a Ineficiência na Justiça em
resolver litígios comerciais rapidamente, num contexto onde a arbitragem ainda
não faz solução alternativa.
2. Para lá dessa questão meramente formal, podemos assinalar outras com
implicações ainda maiores como a gritante insuficiência de infra-estrutura rodoviária
(estradas), ora porque as estradas estão em maus estados decorrente da
deficiente manutenção, ora mesmo porque esta situação gera custos de manutenção
de veículos elevados devido a buracos, falta de sinalização e estradas não
asfaltadas em todo o País. Para além disso, é assinalável a demora no
escoamento da produção, especialmente para empresas agrícolas e industriais,
num contexto onde as PME sofrem ainda mais.
3. Assinala-se ainda as questões relativas à segurança onde se denotam questões
como a percepção de Insegurança pública em algumas áreas urbanas, o que obriga
empresas a investir em sistemas próprios com empresas terceiras para o serviço
de segurança privada protegendo-se, assim, instalações, equipamentos e pessoal
contra roubos e vandalismo de bens e instalações, especialmente em áreas com
policiamento fraco. Nota-se ainda um constrangimento sério ao nível da
mobilidade dos trabalhadores, principalmente aqueles que trabalham em turnos
noturnos.
4. Água e energia são um eterno problema. Quem em sã consciência pode investir
sem se precaver com sistemas alternativos no abastecimento de água potável e
energia eléctrica?O fornecimento de energia eléctrica continua a ser instável,
com cortes frequentes (não tanto na dimensão de apagões), mas cortes gerais ou
intercalado e de fases, o que redunda numa incerteza e incapcidade de
utilização da rede pública. Portanto, cidadãos particulares e empresas continuam
a registar uma grande dependência de geradores, o que aumenta
significativamente os custos de operação e agrava os preços no abastecimento
dos bens e serviços à população.
Na mesma tónica, constatamos problemas de abastecimento de água potável,
exigindo soluções próprias (camiões-cisterna, furos, etc.), para além da
questão da qualidade, ou seja, muitas vezes a água disponibilizada não
apresenta condições para o consumo humano, impondo aqui também outras soluções
como o investimento em filtros e suas manutenções, o que gera, então, outro
custo.
Poderíamos assinalar outros custos, como as telecomunicações; os custos com
o pessoal, o custo de saneamento básico que acabam por afectar os custos
operacionais de forma muito directa, decorrentes também do nosso contexto
particular. A produtividade fica muito condicionada ao sistema de ensino, aos
transportes públicos e mobilidade, mas, também, às questões culturais.
É claro e quase senso-comum afirmar-se que esses custos dificultam a
atractividade do país para investimentos e reduzem a competitividade das
empresas nacionais. O roteiro para a melhoria do ambiente de negócios em Angola
não pode parar e requer reformas estruturais, fortalecimento institucional e
investimentos em infra-estrutura.
O Simplifica é um caminho fundamental, mas deve estar acompanhado de um
processo de maior divulgação junto dos agentes públicos, como reconheceu a
semana passada o Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da
República, Adão de Almeida, durante uma intervenção num fórum empresarial. Se a
isso juntarmos a utilização mais coerente da tecnologia, temos estrada para
percorrer.
A pedra de toque, o próprio ministro Adão de Almeida reconheceu a noção de
que o Estado deve estar aqui para facilitar. Entretanto, se ao menos não
complicar, teremos meio caminho-andado. É certo, todavia, que não se pode
eximir do seu papel. O investimento na segurança e nas infra-estruturas é aqui
vital. O presidente da AIA referiu, por exemplo, citando um estudo da EY, que a
rexuperação das estradas terá um impacto positivo de crescimento do PIB em
cerca de 7%.
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