O drama de David Zé e Artur Nunes Os funestos e brutais acontecimentos de 27 de Maio de 1977 nem sequer permitiram que o músico David Zé tivesse desfrutado à vontade do matrimónio que contraíra no ano anterior.
De facto, o músico David Zé ainda chegou a casar-se antes de
sido passado pelas armas. O matrimónio aconteceu em São Tomé e Príncipe. Não
resistiu aos encantos de uma bela são-tomense, Maria da Trindade, quando em
1976 esteve em digressão por aquelas ilhas junto com o agrupamento musical
Aliança FAPLA-Povo, de que ele era o director musical. Naquela altura, a sua
canção "Quem Matou Amílcar Cabral" estava a fazer imenso furor nos
demais PALOP's (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).
Integravam igualmente o FAPLA-Povo -- sobre o qual não deixava
de recair uma pontinha de inveja dos colegas "finórios" do
Kissanguela, outro grande agrupamento surgido naqueles tempos de fervor
revolucionário sob a alçada da JMPLA -- os seus dois "compagnons de
route" da música popular urbana angolana, Artur Nunes e Urbano de Castro.
Portanto, embora não tenha fruído tempo suficiente dos laços
do matrimónio, David Zé, movido por certo pela veia religiosa que lhe advinha
do facto de ser proveniente de uma família de fortes raízes metodistas, não
quis partir deste mundo sem fazer a coisa como devia ser: constituir família
casando-se "de papel passado", isto é, oficialmente.
O seu companheiro Artur Nunes, conhecido até pelo cognome
"O Espiritual", quis seguir-lhe as pisadas, fazendo também o que era
correcto: nada disso de viver tipo "solteiro maior" e saltar de
relacionamento em relacionamento -- coisa que fazia, amiúde, o elemento mais
"bon vivant" do trio: Urbano de Castro.
No entanto, Artur Nunes já não foi a tempo de contrair
casamento quando a tragédia se abateu sobre todos eles. Está registado que o
músico foi detido no dia seguinte ao 27 de Maio.
Os seus algozes prenderam-no exactamente quando ele se
dirigia, por sinal tranquilamente (o que demonstra desde logo a sua inocência
diante daqueles acontecimentos), ao Cazenga (o "Congo Pequeno" tantas
vezes cantado por Urbanito) com uma pipa de fino para deixar ficar em casa dos
pais da noiva, onde teria lugar a cerimónia de alambamento. Realmente, o
sangrento 27 de Maio teve também esta aziaga particularidade de ter desfeito
namoros e casamentos. Por exemplo, em 1977, Maria Luísa Abrantes
"Milucha" era noiva do Dr. Tilú Mendonça, promissor médico-psiquiatra
que também foi assassinado na sequência do 27 de Maio.
O futebolista Kiferro, funcionário bancário e defesa do Progresso
do Sambizanga, estava de casamento marcado com uma jovem do Sambizanga da
família Caio. Em suma, muitos também tiraram proveito da confusão para
denunciar e mandar para a morte outros indivíduos apenas para lhes ficarem com
os esposos, noivos e namorados.
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