A organização não-governamental (ONG) angolana Movimento Cívico Mudei reprovou hoje, com “veemência”, a reeleição do juiz Manuel Pereira da Silva como presidente da Comissão Nacional Eleitoral, considerando ser uma “afronta à democracia e a eleições livres”.
Em nota pública, a ONG considera que o processo de reeleição de Manuel
Pereira da Silva “Manico” por mais cinco anos, conduzido pelo Conselho Superior
da Magistratura Judicial (CSMJ), configura uma violação aos princípios
fundamentais da democracia e da imparcialidade.
O Mudei recorda que o presidente da Comissão Nacional Eleitoral (CNE) de Angola, agora reconduzido, presidiu às eleições gerais de 2022 “que foram objeto de graves denúncias de irregularidades e fraudes”.
Para a organização cívica, a sua alegada “vinculação política” ao Movimento
Popular de Libertação de Angola (MPLA, partido no poder desde 1975) “fere a
neutralidade e a integridade” que são prerrogativas inegociáveis para o
desempenho de um cargo dessa magnitude.
“A eventual reeleição deste magistrado apenas solidifica a perceção de que
a CNE opera não como um órgão independente, mas como uma extensão dos
interesses do partido no poder”, refere-se na nota.
O CSMJ anunciou, na semana passada, que o juiz Manuel Pereira da Silva foi
declarado vencedor do concurso curricular para presidente da CNE de Angola,
totalizando 91 pontos, e deve permanecer no cargo por mais cinco anos. Manuel
Pereira da Silva ganhou aos candidatos Rosalino Miguel Domingos e Amélia
Cristina Ernesto, aos quais foram atribuídos 48 pontos e 33 pontos,
respetivamente.
A antiguidade na magistratura, a experiência na condução de processos
eleitorais, a formação académica, o mérito profissional e outras experiências
foram os critérios do concurso, segundo o relatório final de avaliação e
apuramento de candidaturas.
Aludindo às diretrizes estabelecidas pela Comunidade de Desenvolvimento da
África Austral (SADC), a ONG angolana considera que a CNE “deveria ser um
organismo de natureza neutra e apartidária”, garantindo paridade nas condições
para todos os envolvidos no espetro político.
O processo da sua reeleição, conduzido pelo CSMJ, “que também é amplamente
conhecido como uma extensão do MPLA, denota uma clara falta de imparcialidade e
um desrespeito por princípios da legalidade”, afirma.
O Movimento Cívico Mudei declara ainda que não reconhece o juiz Manuel
Pereira da Silva como presidente da CNE, que a sua continuidade no cargo “é
incompatível” com a realização de eleições livres e justas e exorta a sociedade
civil, igrejas e partidos políticos a “unirem forças contra essa afronta à
democracia”.
O grupo parlamentar da União Nacional para a Independência Total de Angola
(UNITA, maior partido na oposição) pediu, na segunda-feira, ao Tribunal
Constitucional angolano a nulidade do concurso que reelegeu Manuel Pereira da
Silva como presidente da CNE alegando violação dos princípios da legalidade e
imparcialidade.
Manuel Pereira da Silva preside à CNE desde 19 de fevereiro de 2020 e, nas
últimas eleições gerais, em 2022, foi contestada a sua “idoneidade” por vários
partidos políticos e organizações da sociedade civil.
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