Prezada Senhora Maria Luísa Abrantes (Milucha), Permita-me dar-lhe os parabéns: a senhora conseguiu a proeza de superar os colonizadores portugueses no quesito criatividade discriminatória! Eles, pelo menos, tentavam inventar teorias pseudo-científicas para justificar o seu desprezo. Já a senhora, limita-se a reciclar velhos clichés coloniais e a embrulhá-los num verniz “patriótico”. Que progresso! Mas deixemos os elogios – o seu último panfleto merece uma análise aprofundada, pois é uma verdadeira coleção de pérolas históricas... ou melhor, fósseis intelectuais. Aqui vai, então, uma lição de história para amnésicos voluntários.
“Zairenses”: Quando a Ignorância se Disfarça de Patriotismo
Ah, esse termo “zairenses”! Que obra-prima de sofisticação colonialista! A senhora usa-o como uma faca para dilacerar o tecido nacional, mas sabia que nem os próprios portugueses, no auge da sua arrogância, ousavam chamar os Bakongo de Angola de “estrangeiros”? Até eles reconheciam – ainda que contrafeitos – que o Reino do Kongo existia antes de Angola. A senhora, no entanto, faz melhor: apaga séculos de história com um estalar de dedos. Bravo! A sua lógica é infalível: como alguns Bakongo fugiram para o Congo durante a guerra colonial, então devem ser... congoleses! Aplicando essa brilhante equação, os refugiados ruandeses na Europa são todos belgas e os palestinianos exilados tornam-se egípcios. Que clarividência! Pena que essa teoria não se aplique a outros estrangeiros que a senhora tanto estima. Esses, sim, podem enriquecer à vontade, sem nunca serem questionados. Dois pesos e duas medidas? Não, apenas puro génio.
A FNLA: Esses “Congoleses” que Libertaram Angola
Falemos da FNLA, esse movimento tão “congolês” que foi fundado por...
Holden Roberto, um angolano do norte. Que atrevimento, não é? Lutar pela
independência do seu próprio país! Mas descanse, senhora Abrantes: a sua
reescrita da História é divinamente absurda. Afinal, por que razão reconhecer que
a FNLA iniciou a luta armada em Angola? Mais vale tratá-los como “invasores”,
assim como esses malditos Bakongo que insistem em lembrar que foram eles que
construíram Angola moderna. Ah, ia-me esquecendo: segundo o seu manual
alternativo de História, as escolas, os hospitais e os sindicatos criados pelos
Bakongo depois da independência foram uma “invasão zairense”. Certamente uma
operação secreta orquestrada desde Kinshasa! Que engenhosidade diabólica...
para um povo que a senhora descreve como “preguiçoso”. Decididamente, os
Bakongo são demasiado “débrouillards” para o seu gosto.
Os Assimilados: A Arte de Ser Mais Colonialista do que o Colono
Temos de saudar a sua fidelidade aos Assimilados, essa elite criada do nada
e que imita pateticamente os seus antigos amos brancos, copiando-lhes os
gestos, os vícios e – claro – o desprezo pelos seus próprios irmãos. Depois de
1975, trocaram o fado pelo kuduro, mas mantiveram intacta a arrogância
colonial. A sua estratégia era simples: tratar os Bakongo como “selvagens” para
consolidar o seu domínio sobre o poder. E a senhora, fiel discípula, segue-lhes
as pegadas com maestria! Que ironia! Os mesmos Assimilados que colaboravam com
os portugueses agora dão lições de patriotismo? E a senhora, obediente,
continua a acusar os Bakongo de... falta de lealdade. É como censurar um leão
por defender a sua savana! Mas não vamos acordar os fantasmas de Kimpa Vita,
não é? Ela poderia pedir-lhe satisfações.
“Feitiçaria” e Outras Fábulas para Crianças Malcriadas
A vossa obsessão com a feitiçaria é quase comovente. Afinal, o que pode ser mais assustador do que um povo que nunca se ajoelhou? Os portugueses chamavam-nos “feiticeiros”; a senhora modernizou o insulto e agora chama-lhes “zairenses”. Que inovação linguística! Mas diga-me, se os Bakongo são “feiticeiros”, o que dizer dos assimilados, que enfeitiçaram o Estado angolano e o transformaram num brinquedo para a sua oligarquia? O verdadeiro feitiço, senhora Abrantes, é a sua capacidade de transformar a História numa comédia. Merecia um Óscar... ou um bom curso de História.
Lição de Patriotismo (Para Iniciantes)
Um verdadeiro patriota, senhora Abrantes, não divide o seu povo – une-o. Não chama os seus compatriotas de “estrangeiros” – reconhece a sua resistência e resiliência. Não reescreve a História – preserva-a e ensina-a. Os Bakongo não precisam da sua validação. O seu patriotismo está gravado no solo de Mbanza-a-Kongo, nos campos de café do Uíge, no petróleo de Cabinda, na força do rio Bengo, no coração da Ilha de Luanda, nas escolas que construíram. O seu desprezo, esse sim, será apenas uma nota de rodapé na História: um exemplo de como não ser angolano.
O Futuro Constrói-se Sem Si
Angola avança, senhora Abrantes – com ou sem os seus preconceitos. Os jovens
sabem que a diversidade é uma força, não uma ameaça. Lêem a História, ao
contrário da senhora, e recusam-se a repetir os erros do passado. Um conselho
sincero: antes de dar lições de patriotismo, aprenda a amar todos os angolanos,
inclusive os não Assimilados. Caso contrário, cuidado com a maldição dos
antepassados dos angolanos, que, ao que parece, lhe faltam... Ela pode muito
bem recordar-lhe que a História julga sempre aqueles que tentam dividir o seu
próprio povo. Pois, chamar os Bakongo de Angola de estrangeiros é como acusar o
sol de roubar a luz da lua: absurdo, mas poeticamente revelador... de uma
mentalidade colonizada. A sua Angola é uma gaiola; a nossa, um céu estrelado.
Aprenda a erguer os olhos. Os assimilados herdaram as correntes coloniais; a
senhora, transformou- as em joias.
0 Comentários