No coração do Kikolo, onde o mercado é um turbilhão de gente, poeira e lama quando chove, nasceu uma profissão digna de um Prémio Nobel da Criatividade Popular-AS LAVA-PÉS. Sim, senhor! Se na antiguidade lavar os pés era um sinal de hospitalidade, em Luanda virou um negócio promissor.
As mulheres que exercem essa arte são verdadeiras guerreiras. Com um balde de água, uma escova e um pouco de sabão ou detergente (Omo), elas enfrentam os mais diversos desafios: pés calejados pelo tempo, calçados que já deveriam estar num museu e clientes que acham que higiene é coisa de luxo.
O mercado do Kikolo é uma aventura. Quem entra lá para fazer compras, sai transformado, os sapatos antes pretos agora são marrons de lama; os pés, que saíram de casa branquinhos, voltam a parecer que fizeram estágio numa mina de carvão. E é aí que entram as heroínas do dia!
Mamã, senta aqui que eu limpo! Só 300 kwanzas! — anuncia uma das lava-pés, com um olhar profissional de quem já enfrentou verdadeiras catástrofes podológicas. O cliente hesita. Olha para os pés, pensa na poeira que carrega e no lençol branco que o espera em casa. Não dá! Tem que lavar.
Enquanto a guerreira do Kikolo esfrega com maestria, ela aproveita para dar conselhos gratuitos: Mamã, essa poeira do mercado não é coisa boa. Tem que vir sempre lavar aqui, senão vai dormir e sonhar com o Mussulo, mas acordar com a lama do Kikolo nos lençóis!
E os fregueses adoram o serviço. Alguns até se emocionam: Minha filha, nem na minha infância lavaram meus pés assim! Vou te dar 500 kwanzas, fica com o troco! E assim segue a vida. Entre um balde de água suja e outro, entre um pé de cliente satisfeito e outro ainda relutante, as lava-pés conquistam sua dignidade, ganham seu pão e fazem o que muitos políticos prometeram e nunca cumpriram: limpam o Kikolo, nem que seja um pé de cada vez.
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