A apresentação da nova sede municipal de Sacandica (Província do Uíge), no âmbito da Nova Divisão Político-Administrativa do país, tornou-se um exemplo prático de como a imagem pública pode influenciar (e até comprometer) a mensagem que se pretende transmitir. A sede municipal, em meio a rachaduras e tintas gastas, virou um símbolo involuntário. Não é só sobre falta de tinta ou reboco. É sobre a mensagem que chega ao cidadão. "Se nem a fachada da sede da administração cuidaram, como cuidarão da saúde ou da educação?" É assim que a população pensa. Em política, a comunicação não é sobre palavras, mas sobre como as pessoas se sentem ao ver, ouvir e viver o que é mostrado.
Ao “desterrar” a placa de uma infraestrutura visivelmente degradada, a percepção imediata do público é de abandono, falta de prioridade e despreparo de quem governa. Inauguração ou reinauguração pressupõem melhoria, mas nada ali indica progresso real. Em política, a primeira impressão fala mais alto que qualquer promessa: se o local está em más condições, a ideia de “novo município” perde impacto e reforça a narrativa de que Sacandica continua à margem das prioridades do governo e que esta visão do executivo de elevar comunas a municípios é precipitada e carece de preparação.
Se tivessem realizado, ainda que de forma pontual, uma pintura básica, a mensagem de “novo começo” seria mais convincente. No marketing político, até pequenas intervenções criam o gatilho mental da esperança: o público sente que há, pelo menos, a intenção de mudança. Sem isso, o ceticismo reina.
O Administrador de Maquela do Zombo (Sacandica era uma comuna deste município) pediu desculpas pela situação, sem apresentar a sua demissão. Para o público, isso soa a impunidade e confirma o gatilho de “viés de confirmação” de que o partido no poder não está realmente comprometido com soluções e quem governa mal não é penalizado por isso. Em momentos de crise, muitas vezes o silêncio tático pode ser mais inteligente do que uma declaração sem ações concretas.
Quando a Vice-Governadora aparece num evento de apresentação com uma infraestrutura precária ao fundo, e ainda desterra a placa da aludida instalação, ela mesma acaba se tornando parte do problema aos olhos da população. Em marketing político, o “palco” é tão importante quanto a fala. Realizar a cerimônia em um local neutro, ou ao menos incorporar elementos visuais que evocassem a ideia de desenvolvimento, como por exemplo, o lançamento da primeira pedra da nova sede ou a exibição de uma maquete do projeto da nova vila do município, seria mais apropriado ao contexto. Dessa forma, a narrativa transmitiria um claro compromisso com o futuro do município, em vez de reforçar a impressão de descaso.
A lição final? No marketing político, cada detalhe conta. Não basta anunciar a criação de um novo município se, ao fazê-lo, a imagem transmitida é de indiferença e falta de planeamento. Como cantou o músico Brigadeiro 10 Pacotes, "o governo toca mais uma guitarra, mais uma música e o povo já não quer dançar, nem rir". Essa frase ilustra perfeitamente a sensação de exaustão e desengajamento da população diante de iniciativas que soam repetitivas e sem conteúdo transformador.
Portanto, é imperativo que a comunicação política seja acompanhada de ações
visíveis e que impactem positivamente as vidas das populações, para que cada
nova "música" tocada pelo governo não seja apenas mais um refrão
vazio, mas sim uma melodia que, de facto, convide o povo a dançar e sorrir
novamente.
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