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A Imortalidade Ética e Cívica do Ismael

 O Ismael deixou de estar vivo no momento em que esgotou o fôlego de vida que a graça lhe concedeu por intensos, inspiradores e edificantes sessenta anos? Depende de como agirem os que ainda respiram. Todos somos parte de uma corrente, que tem uma dimensão biológica mas também tem uma componente cívica e ética.

A morte é grande e poderosa? Sim. Mas o Ismael também. Ficar-se pela dor e pelas lamentações é cooperar com a morte. Integrar as virtudes do Ismael e aprender até com os seus defeitos (que todos nós temos os nossos) é segurar na mutimba e dar continuidade à luta do Ismael, que era a continuidade da luta dos nossos pais e dos nossos ancestrais. Eles nos ensinaram um sentido de valor próprio que nos impele a preferir morrer lutando, a viver se acobardando.

Coragem. Atitude. Ousadia. Tolerância. Integridade. Verticalidade. Com tanto por onde pegar, com tantos instantes em que o Ser do Ismael esteve presente, não é justo (para quem deu tanto de si para tantos de nós), que por ocasião da sua morte física o sintamos apenas desde a perspectiva do não-mais-ser. As suas dimensões ética e cívicas são eternas, ainda que em potência.

Uma pesssoa como o Ismael, com o seu optimismo construtivo, com seu irrestrito amor pelas nossas gentes e pela sua inabalável crença na viabilidade de uma Angola inclusiva e tolerante, merece muito mais do que palavras de ocasião e honrarias que já não são sentidas pelo Mateus, nem pelo Sebastião.

Numa realidade em que a vida humana seja efectivamente honrada, seria proposta e aprovada por unanimidade na Assembleia Nacional uma lei em reconhecimento a uma das últimas reivindicações cívicas feitas pelo bravo combatente da primeira região: alterar a Lei da Divisão Político-Administrativa, convertendo a actual Província do Bengo em Província dos Dembos, com sede no Município de Nambuangongo.

Mais coisas podem ser feitas? Sim. Ouvir a mensagem que o Ismael procurou passar com as suas palavras e com o seu silêncio. Não precisamos aceitar todas as palavras de um homem, mas podemos e devemos procurar compreender. Ao aceder às ideias subjacentes à mensagem, podemos quiçá ter outras maneiras de as concretizar, mas não podem ser ignoradas as palavras de quem amou a sua nação acima das suas próprias dores e vulnerabilidades.

Quase todos conhecemos as mensagens que o Ismael passou com as suas palavras, falada e escritas. Mas que mensagem terá procurado passar com o que não partilhou, guardando as suas dores para si próprio enquanto seguia criando amor e plantando sonhos com os olhos secos?

Cada um pode ter uma leitura diferente. Para mim, a mensagem seria qualquer coisa como: "Não tenho vocação para vítima, agradeço a vossa preocupação e compaixão, mas o que gostaria mesmo era que se juntassem a mim nos meus sinceros e bem intencionados esforços para fazer de Angola um país que honre o sacrifício dos nossos pais, recompense as lágrimas das nossas mães e ofereça aos nossos filhos e netos um ambiente de confiança no futuro, de modo a que não mais precisemos viver com tanto medo da morte".

 

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