Os gloriosos 50 anos de independência de Angola! Um momento histórico, solene e… cuidadosamente editado. Afinal, o governo angolano decidiu que a memória nacional precisa de um retoque aqui e ali, garantindo que apenas as figuras “adequadas” sejam lembradas. Assim, Holden Roberto e Jonas Savimbi foram elegantemente varridos para debaixo do tapete da história.
Mas sejamos justos: quem precisa de factos históricos completos quando se
pode ter uma narrativa bem polida? As teorias do poder explicam bem essa
brilhante estratégia de esquecer certos personagens incómodos e garantir que a
história continue a ser contada por quem detém a caneta – e, claro, a máquina
do Estado.
A Arte de Apagar e Reescrever: Porque a História Deve Servir ao Poder Max Weber (1978), um homem sábio que, se fosse vivo, provavelmente daria risadas desta situação, explicou que o poder se sustenta por três formas de dominação: tradicional, carismática e legal-racional. O MPLA, num acto de genialidade, misturou tudo isso e criou uma nova categoria: a dominação editorial da história.
O raciocínio é simples: se repetirmos o suficiente que só o MPLA libertou
Angola, talvez as próximas gerações realmente acreditem nisso. Simples, eficaz
e brilhante! Como Weber diz, "a dominação legítima exige um quadro
institucional que sustente a crença na autoridade" (Weber, 1978). Nada
melhor do que apagar rivais históricos da memória oficial para garantir essa
crença.
Agora, vejamos Gramsci (1971), que alertou para a hegemonia cultural: o
poder não se mantém só com armas, mas também com controlo sobre o que as
pessoas pensam. O MPLA entendeu bem essa lição e há décadas vem moldando a
história para que todos saibam quem são os heróis – e quem simplesmente “não
existiu”. Um golpe de mestre!
O Poder Simbólico: A Magia de Tornar Alguém Invisível
Pierre Bourdieu (1989) deve estar a aplaudir de pé esta estratégia. Afinal,
como ele dizia, o poder simbólico é aquele que impõe significados e molda a
realidade social. Se não se fala de Holden Roberto e Jonas Savimbi, então eles
simplesmente desaparecem. Quem controla o passado, controla o futuro – e quem
controla o presente decide qual passado será lembrado.
E Michel Foucault (1977)? Bem, ele diria que "o poder produz
saber". Traduzindo: quem manda, decide o que é verdade. Assim, ao não
conceder medalhas a certas figuras históricas, o governo está simplesmente a
definir a realidade. Não se trata de ocultação, não senhor. É apenas uma
“curadoria histórica” para garantir que o povo não tenha de lidar com detalhes
desnecessários.
A Estratégia do “Se Não Está na Lista, Nunca Aconteceu”
Steven Lukes (2005) identificou três dimensões do poder:
1. O poder decisório – Quem toma as decisões? O MPLA, claro.
2. O poder estrutural – Quem define as regras do jogo? O MPLA, mais uma vez.
3. O poder ideológico – Quem controla o que pode ou não ser discutido? Bem,
você já adivinhou…
A exclusão de Holden Roberto e Jonas Savimbi é um exemplo brilhante da
terceira dimensão do poder. Afinal, se não estão na lista de homenageados,
então talvez nunca tenham existido, certo? E se algum jovem curioso perguntar
sobre eles, a resposta será sempre a mesma: “Quem? Ah, aqueles senhores que não
fizeram nada de importante…”
Conclusão: O Futuro Pertence a Quem Sabe Editar o Passado
Afinal, para quê complicar a história com múltiplos protagonistas quando se
pode simplificá-la com um único herói? E que herói conveniente: um partido que
nunca erra, que sempre soube o que era melhor para o país e que, por acaso,
continua no poder meio século depois.
Se há uma lição a tirar destes 50 anos de independência, é esta: a história
não é escrita pelos vencedores, mas pelos que permanecem no poder e sabem usar
a borracha e a caneta na hora certa. E assim, Angola caminha rumo ao futuro,
carregando uma história ajustada ao gosto do freguês.
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