Foi com grande apreço que recebi o convite formulado pela
AJECO para proferir o discurso de abertura da 3.ª edição do Fórum Banca e
Seguros, que, este ano, se realiza sob o lema: “A importância do Crédito e
Seguro Agrícola para o Crescimento do Sector Produtivo Nacional”.
Começo, em primeiro lugar, por sublinhar a relevância
inequívoca do pepel da classe jornalística na construção de sociedades bem
informadas e formadas, através da veiculação de informações de forma rigorosa e
verdadeira, para a construção de valores positivos que promovem o
desenvolvimento cultural e socioeconómico.
Permitam-me enaltecer a organização deste evento, que se
dignou trazer à reflexão este tema de capital importância, visto que a
agricultura continua a desempenhar um papel crucial na sociedade e na economia,
por ser fonte da maior parte dos alimentos que o homem consome e de
matérias-primas imprescindíveis ao funcionamento de várias indústrias.
Na nossa sociedade, não obstante os avanços significativos
registados até à presente data, o fomento do sector da agricultura ainda é
marcado por inúmeros desafios, havendo, por isso, espaço para a formulação de
estratégias que estimulem o crescimento sustentável, visando tornar-se na
principal fonte para atender a procura nacional e garantir a tão almejada
segurança alimentar do nosso país, conforme consagrado no Plano de
Desenvolvimento Nacional 2023 - 2027.
Sublinhe-se que, para o Banco Nacional de Angola, é
importante o crescimento sustentável do sector produtivo no seu tudo, mas
especialmente do sector agrícola, como garante de uma maior oferta interna de
alimentos, que pela natureza da nossa economia, segundo dados do Instituto
Nacional de Estatística (INE), respondem por cerca de 54,42% da cesta
representativa de consumo das famílias angolanas e nos últimos tempos tem
contribuído, em média, com cerca de 65% no Índice de Preços ao Consumidor
Nacional.
O crescimento do sector agricola poderá concorrer para a
facilitação da operacionalização da missão principal do Banco Nacional de
Angola, que consiste em garantir a estabilidade de preços na economia, tendo em
vista a preservação do valor da moeda nacional.
Assim, é imprescindível reconhecer que o impulso do sector
agrícola passa pela potenciação do crédito à economia que deve facilitar aos
agricultores o acesso a recursos excedentários depositados nos bancos
comerciais, para iniciar, desenvolver, modernizar a sua actividade e aumentar a
sua produtividade e competitividade.
Neste domínio, deixem-me destacar alguns casos de sucesso,
decorrentes da implementação do Aviso n.º 10/2022, que permitiu ao sector da
agricultura beneficiar de forma crescente de crédito, no quadro da promoção da
diversificação da economia real angolana e, por essa via, reduzir a dependência
excessiva da importação de bens e serviços e contribuir para a sustentabilidade
das contas externas do país.
O número de concessões de crédito ao sector agrícola passou
de 216 créditos desembolsados em 2020, avaliados em 154,56 mil milhões de
Kwanzas para 377 créditos em Outubro de 2023, correspondendo a cerca de 550,06
mil milhões de Kwanzas, o que sinaliza que este tem tido um impacto
significativo no crédito destinado ao sector real da economia.
O peso do sector agrícola no total do stock de crédito à
economia passou de 6,26% em 2020 para 8,61%, em 2022, e quanto ao seu peso na
estrutura do Produto Interno Bruto (PIB) passou de 7,8% em 2020 para 9,1% em
2022. Assim, face aos recursos destinados à alavancagem do sector da
agricultura, foram criados 24 419 postos de trabalho directos no referido
sector.
A produção nacional ainda é insuficiente para cobrir as
necessidades de alimentação da população do nosso País, estimada em 33 086 278
em 2022 e que tem crescido a uma taxa média anual em torno de 3%.
O défice de oferta interna de bens alimentares tem sido
coberto com recurso às importações de alimentos, que em 2022 representaram 2
889,64 milhões de dólares norte americanos, situação que tem sido
insustentável, principalmente em períodos de queda das disponibilidades de
divisas. Nesta senda, recomenda-se o contínuo esforço para o alcance da
efectiva diversificação da economia nacional, com enfoque especial para o
sector primário.
A necessidade de financiamento para diversificação da
economia, em particular do sector agrícola, é imensa, mas não se deve descorar
que é um sector sujeito a grandes riscos, especialmente ligados às condições
climáticas, que configuram, actualmente, sérios obstáculos à maior concessão de
crédito.
Neste contexto, não posso deixar de assinalar à importância
do seguro agrícola para diluir os riscos associados à actividade do próprio
sector, bem como para os bancos comerciais, que devem sempre conceder crédito
de forma responsável, surgindo como um escudo contra as incertezas climatéricas,
adversidades naturais e qualquer outro choque que ameace o rendimento dos
agricultores.
Com o intuito de alcançar este propósito na nossa economia,
temos de realçar algumas iniciativas, tal como ocorreu, através da celebração
do Acordo de Cooperação entre o executivo angolano e a Cooperação Financeira
Internacional (cuja sigla em inglês, IFC, é bem conhecida), com o objectivo de
serem preparadas as condições para a implementação efectiva do crédito
agrícola.
Por outro lado, é importante referir que, a existência de
outros instrumentos como a concessão de garantias públicas aos produtores
nacionais, que poderão ser complementadas com garantias parciais,
disponibilizadas por outras instituições que queiram participar, representa uma
grande janela, para a dinamização do crédito agrícola. De notar que, nessa
direcção, uma seguradora da praça assinou recentemente um memorando de
entendimento com o Fundo de Garantia de Crédito.
Importa salientar que, um bom sistema de crédito agrícola,
alinhado com seguros e garantias, permitirá colocar o agricultor mais focado na
actvidade produtiva efectiva, que a economia angolana muito precisa,
beneficiando assim, não só o produtor e as companhias de seguro, mas,
sobretudo, a sociedade e a economia no geral.
No entanto, permitam-me referir que recai sobre a esfera dos
beneficiários do crédito agrícola um desafio imperioso, que consiste na
capacidade de reembolsar o crédito contratualizado, por via da rendibilidade do
projecto, o que sugere que o produtor deverá estruturar projectos viáveis e
sustentáveis, e endividar-se ao limite da sua capacidade de reembolso.
O Banco Nacional de Angola, enquanto regulador e supervisor
do sector bancário, vai continuar a prestar todo apoio aos principais
intervenientes deste processo, quer no domínio da edificação da arquitetura
regulamentar favorável à concessão do crédito de forma célere e responsável,
quer na flexibilização de soluções que contribuam para o fortalecimento do
tecido produtivo nacional, de forma mais robusta e sustentável.
Finalizo, expressando o meu desejo de que no final desta
edição possamos sair mais bem esclarecidos e enriquecidos sobre os desafios e
caminhos a serem trilhados no âmbito do financiamento agrícola, e aproveito o
ensejo para exortar os profissionais da comunicação social a continuarem a
exercer o seu papel de intermediação entre os actores do sistema financeiro e a
sociedade de forma sábia e firme, tendo em vista a elevação dos níveis de
literacia e inclusão financeira no nosso país.
Com essas palavras declaro aberta a 3.ª edição do Fórum Banca
e Seguros, sob o tema “A importância do Crédito e Seguro Agrícola para o
Crescimento do Sector Produtivo Nacional."
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