Entre 2014 e 2021, o país perdeu 315 dólares (293 euros) anuais por cada cidadão. Para Alves da Rocha, a paz é um bem público, pertence ao povo e a melhor comemoração é a melhoria das suas condições.
O economista Alves da Rocha disse esta quinta-feira que as desigualdades
sociais em Angola são “aberrantes e indignas” e frisou que entre 2014 e 2021
perderam-se 326 dólares (337 euros) por ano de rendimento médio por habitante
no país.
Os dados de base, retirados das referidas fontes, às quais se pode juntar as
Contas Nacionais, observa Alves da Rocha, apontam para uma “degradação
crescente” das condições gerais de vida dos angolanos.
A análise feita pelo também diretor do Centro de Estudos e Investigação
Científica da Universidade Católica de Angola (UCAN) foi apresentada no 2.º
Ciclo de Debates: O Dividendo da Paz em Angola: Os indicadores económicos,
políticos e cívicos antes de 2002 e agora.
Nesta sessão de debates, promovidos pelo Grupo de Reflexão, Aconselhamento
e Debate (GRAD) do Laboratório de Ciências Sociais e Humanidades da UCAN, o
economista falou sobre “A Paz e Reconciliação Nacional”.
Angola celebrou este ano, em 4 de abril passado, 21 anos de paz e
reconciliação nacional, após o fim do conflito armado em 2002.
Para Alves da Rocha, a paz é um bem público, pertence ao povo e a melhor
comemoração da paz é a melhoria das suas condições de vida, “sistematicamente
degradados desde há muitos anos a esta parte“.
Caviar e lagosta — nas opíparas refeições oferecidas pela burguesia
nacional — contrastam com o funje de mistura sem conduto (só de água, sal e
gindungo) em mais de 90% das famílias angolanos”, afirmou.
O economista vincou que as desigualdades sociais no país “são aberrantes e
indignas dos preceitos da nossa Constituição”.
Devemos ter vergonha do quadro societário desequilibrado existente onde
campeia a pobreza, a fome e a marginalização. É indigno comemorar-se os anos de
paz com tanta criança nas ruas a pedir um pão para comer”, lamentou.
No entender do economista angolano, a ausência de guerra “é importante e
inestimável mesmo”, contudo, a ausência de ações armadas não significa paz,
“apenas novas condições para o acontecer do desenvolvimento” e do progresso,
“os únicos e determinantes fatores de unidade e reconciliação nacional“.
Segundo Alves da Rocha, no texto apresentado no encontro pela coordenadora do
GRAD, Cesaltina Abreu, a ausência de guerra “é um ganho substancial, mas o seu
aproveitamento tem sido defeituoso e acintoso” já que não resultou em
“melhorias visíveis nas condições de vida da maioria da população“.
A “intensa dinâmica” de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre
2003 e 2008 “(cerca de 10,7% ao ano, podendo ser duplicado em menos de sete
anos), um dividendo material efetivo da paz”, realçou, foi canalizada para o
processo de acumulação primitiva de capital e de criação de uma burguesia
nacional endinheirada“.
Esse, apontou, era o período propício para se ter operado uma alteração do
modelo de distribuição do rendimento nacional a favor do combate contra a
pobreza e que teria preparado o país para uma “maior resistência às intempéries
das quedas do preço do petróleo“.
Alves da Rocha defendeu ainda que a reconciliação nacional “só será
efetiva” com uma “base económica segura (espalhar-se dentro de critérios de
racionalidade, estruturas produtivas e económicas), crescimento sustentável e
acesso a oportunidades de enriquecimento”.
.jpg)
0 Comentários