Na comuna da Funda Kilunda, no município de Cacuaco, em Luanda, a agricultura familiar tem registado um crescimento positivo fruto da dinamização e esforços gizados pelos camponeses filiados na Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agro-Pecuárias de Angola (UNACA), incluindo as famílias camponesas não inscritas em nenhuma associação e cooperativa.
Embora os camponeses estejam a atravessar ainda alguns constrangimentos, com realce aos insumos agrícolas e financiamento para o melhor desenvolver a actividade produtiva, existem cooperativas e produtores que tudo fazem a fim de aumentar as colheitas ano após ano.
É o caso da cooperativa "Seteka”, filiada na UNACA de Luanda, que anualmente regista uma produção entre 70 e 80 toneladas de vários produtos.Das colheitas, destaca-se a cebola branca e roxa,
batata, tomate, feijão, milho, berinjela, quiabos, gindungo, couve, alface,
pepino, cenoura, repolho, entre outras culturas.
Estes produtos são escoados para os mercados do
Sabadão, KM 30 e do Catinton.
A cooperativa, localizada na comuna da Funda Kilunda,
está rodeada de outras fazendas e lavras de pequena e grande dimensão
atribuídas aos camponeses, no âmbito do combate à fome e à pobreza.
Actualmente, a cooperativa Seteka é
composta por 74 membros, entre 22 mulheres e 52 homens, que detêm 800 hectares
de terra, dos quais 750 de área já cultivada e as restantes 50 por cultivar.
Extensão de terras
Para constatar o dia-a-dia dos camponeses, o Jornal de
Economia & Finanças visitou a cooperativa Seteka, onde verificou
grandes extensões de terras cultivadas, algumas em fase de colheita e outras
ainda em germinação para o próximo Ano Agrícola 2023-2024.
No local, o secretário-geral da cooperativa Seteka,
Marcial de Oliveira, disse que há épocas em que a safra ultrapassa
as 100 toneladas.
O produtor avançou que os camponeses colhem duas a
três vezes por ano, por existir culturas que duram apenas 45 a 65 dias de
crescimento.
Quanto à distribuição de terras, Marcial de Oliveira explicou que nos 800 hectares, cada família camponesa filiada na UNACA beneficia de 5 a 12 hectares de terra, e outras de dois a um hectare e meio.
Falta de financiamento
Um dos grandes constrangimentos que dificulta o
aumento da produção tem a ver com a falta de financiamento, já que, até agora,
a cooperativa ainda não tem tractor próprio para ajudar a desbravar
a terra.
Para esta actividade, o nosso interlocutor disse que o
processo é feito manualmente, e às vezes recorrem no aluguer de um tractor.
O preço varia de 25 a 35 mil kwanzas, sem a charrua, e
com este instrumento, o custo atinge até aos 35 mil kwanzas.
A cooperativa Seteka está a beneficiar dos instrumentos financeiros disponibilizados pelo Governo para acelerar a actividade agrícola, mas, ainda assim, apela a mais apoios.
Previsão para Ano agrícola 2023-2024
Os membros da cooperativa Seteka têm estado
a trabalhar para que no próximo Ano Agrícola, os indicadores de produção possam
atingir bons resultados.
Para a próxima época, a organização prevê apostar em
culturas com ciclo curto de germinação, como é o caso da cebola, milho,
pimento, gindungo e pepino.
O processo de rega das terras da cooperativa é feito
por motobombas que extraem do rio que banha a região, cuja água é bombeada para
as lavras.
Para o sucesso do Novo Ano Agrícola, a cooperativa
Seteka precisa de apoio, sobretudo de fertilizantes, sementeiras, incluindo
crédito que já não beneficia desde 2012.
Entre 2009 e 2012, a cooperativa Seteka beneficiou de
crédito disponibilizado pelo BAI Micro Finanças.
"A primeira vez recebemos um crédito de 7 mil
dólares, e o segundo foi de 50 mil”, frisou Marcial de Oliveira, tendo realçado
que até agora "nunca mais beneficiou de nenhum incentivo financeiro”.
Serviço de fiscalização
O chefe da fiscalização da cooperativa Seteka, André
António, disse que a organização tem desenvolvido acções para o controlo dos
insumos postos à disposição dos associados.
A fiscalização tem sido mais rígida com os camponeses
que recebem adubos ou sementes, mas que por alguma razão não utilizam e acabam
por armazenar nas suas residências.
Nestes casos, a cooperativa tem sensibilizado os
membros a usarem os insumos para contribuir no aumento da safra.
Produção
André António é também proprietário de 10 hectares de
terra, parcela que lhe foi atribuída pela cooperativa onde
cultivou tomate, cebola, gindungo, couve, cenoura entre outros
produtos.
Na sua parcela, André António tem registado grandes
colheitas. Às vezes, colhe duas vezes por ano, principalmente o tomate, que
depois de 65 dias de plantado está pronto para a colheita.
O mesmo processo acontece com a cebola de folha, que
regista uma grande procura. Já a cebola seca (sem folha), a época de
colheita é de Dezembro a Janeiro.
"As vendedoras procuram mais por cebola de folha
porque tem mais saída no mercado”, frisou André António.
Hortaliças têm muita procura
Raimundo António é um dos filiados da cooperativa que
se dedica à produção de cebola e tomate. Na zona da Funda Kilunda, o camponês
está há mais de 20 anos, e é detentor de 1,5 hectare de terra, onde já plantou
cebola de folha, em fase já de colheita.
O produto conseguiu alavancar o seu cultivo graças ao
"Projecto Cultura” que ajudou os camponeses com insumos.
Raimundo António produz a cebola de folha
nos meses de Maio, Junho e Julho, e colhe de Agosto a Outubro. O tomate é
colhido duas vezes por ano.
"Vendemos caro alguns produtos porque também
compramos a preço elevado o combustível com que abastecemos o gerador para
podermos ter água nas lavras”, frisou Raimundo António.
Agricultores preocupados com fraco
financiamento
Cerca de 15 cooperativas agro-pecuárias da província
de Luanda beneficiaram de um financiamento avaliado em 15 milhões de Kwanzas
cocedido pelo Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) e o Fundo de Apoio ao
Desenvolvimento Agrário (FADA).
O presidente da Direcção executiva da UNACA, na
província de Luanda, José dos Santos, considera o valor insuficiente para
"diminuir” os constrangimentos que os associados enfrentam, aliado, ao
elevado número de membros.
A UNACA na província de Luanda controla 64 cooperativas
e 21 associações de camponeses, que perfazem um total de 85 organizações de
camponeses.
"Existem cooperativas com 65 membros, e
que, quando é distribuído três carro-de-mão, 23 catanas, 18 enxadas,
por exemplo, não chega. Gostaríamos que o Executivo angolano e as
administrações municipais melhorassem o processo de distribuição dos insumos, o
que vai ajudar a contribuir no crescimento da classe”, frisou.
Baixa produção
O responsável disse que no primeiro trimestre do Ano
Agrícola 2021/2022, os níveis de produção registaram uma redução, no segundo,
houve uma colheita considerável, tendo atingido 9 mil toneladas de produtos
diversos.
Os baixos níveis de produção, no primeiro trimestre,
foram provocados pelas cheias e inundações causadas pelo rio Kwanza, fruto da
abertura das comportas dos aproveitamentos hidroeléctricos de Laúca e Cambambe.
José dos Santos disse que parte dos filiados ainda não
conseguiu recuperar a produção, já que muitos camponeses desenvolvem a sua
actividade no Corredor do Kwanza, no município do Icolo Bengo, Quissama, Viana,
Cacuaco, e na zona do rio Zenza.
Fruta atrai clientes nas
ruas de Cacuaco
Nas ruas de Cacuaco até chegar à Funda Kilunda, as
vendedoras de frutas mostram as potencialidades e variedades que o chão produz.
A via principal tem no seu percurso comerciantes de
banana, melancia, laranja, abacate e limão.
O mercado do Sabadão é também, um grande ponto de
concertação de venda de frutas. A fruta comercializada tem várias origens,
desde a Funda Kilunda, Cabiri, Caxito (Bengo), Kindege (Zaire), Huambo, entre
outras províncias.
Juliana Mário é vendedora no mercado do Sabadão há 20
anos. A comerciante compra na Funda Kilunda entre três a quatro cachos de
banana, por 500 a 1.000 kwanzas.
A revendedora comercializa cada cacho a mil e os mais
pequenos a 500 kwanzas.
Outra fruta de destaque no mercado do Sabadão é a
melancia de casca verde escura, e as denominadas pelas vendeiras de melancia de
risca, proveniente do Bengo e de outras regiões do país.
Novo asfalto facilita escoamento da
colheita
Além do verde do cultivo que a Funda Kilunda dispõe, uma das imagens e paisagens que a comuna mostra é a facilitação na circulação de pessoas e bens. Hoje, o processo dá um novo visual à localidade, depois da reabilitação da via principal por parte do Governo.
O escoamento da produção é mais rápido. Antigamente,
os camponeses tinham de gastar avultadas somas em dinheiro para o frete, que
rondava entre 50 e 100 mil kwanzas, dependendo da quantidade do produto
e da distância.
Nos rostos dos munícipes da Funda Vila e Funda Kilunda
nota-se a alegria. Os camponeses, vendedores, taxistas, mototaxistas ,
automobilistas e peões circulam com mais fluidez. Contactados, alguns
transeuntes afirmam que um dos grandes ganhos da comuna é o fim do principal constrangimento.
Com a má qualidade das vias, não conseguiam chegar às
suas lavras, ficando mesmo mais de uma semana, e quando conseguissem lá chegar,
eram obrigados a permanecer duas a três semanas, porque os táxis circulam com
muita dificuldade.
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