“Nós a FNLA elaboramos um texto que com pequenas emendas, foi o texto dos acordos de Alvor”, afirma Álvaro Holden Roberto

 

Para esta edição publicamos a
primeira parte da última grande entrevista do líder fundador do Partido dos
Irmãos, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) dada ao jornal
português o Público, em 1999, onde aborda os meandros dos acordos de Alvor e a
conspiração que visava afastar o seu partido neste processo e outros assuntos.




Como foram preparados os
acordos de Alvor?



Holden Roberto: Os acordos de Alvor foram
preparados primeiro como a cessação completa das hostilidades em Angola à 15 de
Outubro depois da negociações com uma delegação portuguesa que se tinha
deslocado para Kinshasa onde estava a direcção da FNLA. Só que na altura havia
um outro problema. O MPLA estava dividido em três fracções e era necessário
reconciliar o MPLA e depois encontramos uma plataforma conjunta de servisse de
base de negociações com os portugueses. Mesmo assim, nós a FNLA elaboramos um
texto que com pequenas emendas foi o texto dos acordos de Alvor. A primeira
discussão desse texto foi em Mombassa, Quénia onde juntamo-nos os três
movimentos a FNLA, MPLA e a UNITA em linhas fortes de negociações com os
portugueses.



Nesse encontro de Mombassa os
outros movimentos haviam apresentado também propostas?



HR: Absolutamente nada, só
limitamo-nos a discutir o nosso texto e praticamente não houve trabalho nenhum,
porque a reunião serviu apenas para permitir a aprovação do texto por nós
elaborado. Depois disso marcamos o encontro seguinte em Alvor.



Qual foi o primeiro movimento
a chegar a Portugal?



Foi
o MPLA e depois a UNITA. Nós partimos de Kinshasa para Portugal, num avião que
nos tinha sido emprestado pelo presidente Mobutu. Chegados a Portugal, notamos
que havia uma grande contra nós.



Quem fomentava esta campanha?



HR: A imprensa portuguesa, desde
a Rádio, a televisão até aos jornais, era uma campanha que metia medo.



O que diziam da FNLA?



HR:Mostravam as imagens dos acontecimentos
de 15 de Março, éramos tratados de selvagens, analfabetos zairenses de quase
todos os nomes possíveis. O curioso é que não havia nada contra a UNITA nem tão
pouco o MPLA. Nós acompanhamos toda aquela situação e pouco antes do início das
negociações interpelamos os senhores Mário Soares então ministro dos negócios
estrangeiros e Almeida Santos titular natura da pasta da Administração do
Território, aquém manifestámos o nosso desagrado e a intenção de abandonarmos
Portugal caso a propaganda hostil continuasse. A delegação portuguesa
desculpou-se primeiro com as alegações de que em Portugal havia um pleno
exercício de liberdade de imprensa, mas, mais tarde depois de consultas com o
presidente da República, Marechal Gomes Costa, os ataques terminaram. Na sala
de reuniões entremato existiu um outro elemento que nos dividiu que era a
presença do senhor Rosa Coutinho. Nós havíamos rejeitado a presença dele nas
negociações porque esse quando chegou a Angola como Alto-comissário, cometeu
muitas atrocidades contra os nossos compatriotas e depois porque foi o primeiro
prisioneiro de guerra que a FNLA tinha feito no início da luta armada e foi um
pouco maltratado, porque nós ainda não possuíamos uma experiencia de coabitação
com os prisioneiros de guerra. Ele poderia transportar para as negociações em
sentimento de vingança, por esta razão pedimos a retirada dele.



Durante as negociações a FNLA
em algum momento sentiu-se prejudicado em detrimento de outros movimentos, o
MPLA e a UNITA?



HR: Era muito claro. Mas para nós
o mais importante e que estávamos as conquistar a liberdade depois de 14 anos
de luta.



OBS. CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO….

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