O jornalismo é conhecido como o quarto poder porque, em qualquer sociedade democrática, deve fiscalizar, questionar e informar. Contudo, em Angola, este poder tem sido tratado como um parente distante, respeitado no discurso, mas limitado na prática. A imprensa é frequentemente acusada de ser refém do Estado, sem a liberdade necessária para exercer plenamente a sua função social.
Não se pode negar que ser jornalista em Angola continua a ser uma profissão de risco. Muitos trabalham com salários baixos, em condições precárias e sem protecção adequada. Há histórias de colegas que morreram em serviço, vítimas da violência, da repressão ou simplesmente da negligência. Isso mostra que, apesar do nome pomposo de quarto poder, muitos vivem sem poder algum.
É um paradoxo que uma actividade tão nobre, que exige coragem e entrega,
seja, ao mesmo tempo, tão desvalorizada. O jornalista arrisca-se na rua para
informar a sociedade, mas regressa para casa sem garantias de segurança e sem
remuneração justa. O brilho da profissão está muitas vezes ofuscado pela sombra
da sobrevivência diária. Ser jornalista em Angola é atravessar um terreno cheio
de obstáculos e contradições.
O profissional lida com longas jornadas, pressão constante, ausência de
condições adequadas e, muitas vezes, a falta de valorização da sua função.
Apesar de ser a base da informação, quem garante a verdade dos factos nem
sempre encontra reconhecimento no mercado. As vicissitudes não são apenas
materiais, mas também emocionais, uma vez que a ética e a dignidade são
diariamente testadas.
Um dos pontos mais sensíveis é a discrepância salarial dentro do próprio
sector. Enquanto os apresentadores de televisão, pela visibilidade que possuem,
conseguem melhores salários e maior projecção pública, os repórteres e redactores,
que produzem a informação, ficam muitas vezes em segundo plano. Esta
desigualdade gera frustração e uma sensação de injustiça entre aqueles que
carregam o peso da notícia. A discrepância mina a motivação e aprofunda a
desvalorização da profissão.
Para quem escolheu o jornalismo como vocação, as vicissitudes são um teste
diário de resiliência. A luta não é apenas pela sobrevivência material, mas
também pela manutenção da ética, da dignidade e da credibilidade. A pressão
para “vender” uma imagem, agradar às fontes ou alinhar com interesses políticos
fragiliza a essência do ofício. Nesse contexto, manter-se firme é um acto de
coragem e resistência.
A situação torna-se ainda mais grave quando pensamos no exemplo que se
transmite para as novas gerações. Muitos jovens que sonham em ser jornalistas
observam a realidade do mercado e percebem que o esforço nem sempre se traduz
em reconhecimento. O brilho da televisão acaba por seduzir, mas nem todos
compreendem o esforço invisível que sustenta cada programa. O risco é
transformar a profissão num palco de vaidades, esvaziando o sentido de missão
que deveria guiá-la.
O maior dilema é quando o profissional se vê obrigado a escolher entre a
dignidade e o pão na mesa. Querendo ou não, muitos jornalistas tornam-se reféns
das fontes e do sistema porque precisam sustentar as suas famílias. Nesse jogo
cruel, a ética, a conduta e até a verdade podem ser sacrificadas. É aí que o
quarto poder perde a sua essência.
Nos últimos tempos, no entanto, parece que algo começou a mudar. A
consciência colectiva entre jornalistas tem despertado, revelando que a
dignidade não pode ser eternamente adiada. O anúncio de greve pelo sindicato
dos jornalistas representa uma virada de página, ainda que polêmica, na
história da comunicação em Angola.
É verdade que, em Angola, greves quase sempre resultam em violência,
vandalismo, prisões e até mortes. Esta realidade lança uma nuvem de incerteza
sobre a eficácia desse caminho. Mas também revela o desespero de quem não
encontra outro espaço de escuta. Quando o diálogo se fecha, a greve aparece
como último recurso.
Ainda assim, o diálogo deveria ser sempre a primeira alternativa. É nele
que se encontram as pontes, mesmo que frágeis, entre interesses divergentes. O
consenso nem sempre nasce na primeira conversa, mas a insistência no debate é
que pode criar soluções sustentáveis. Sem diálogo, só resta o confronto, e este
raramente constrói.
Mas o que será que pode acontecer caso a greve avance? Represálias,
despedimentos, listas negras impostas pelos chefes? E se não avançar, qual será
a imagem deixada para o futuro? O silêncio também pode ser um preço caro,
porque perpetua a precariedade e a dependência.
Nessa equação, um factor-chave precisa ser questionado: o Ministério das
Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social. Qual será o
seu posicionamento diante da reivindicação da classe? O ministério vai ser
mediador ou mero guardião do status quo? Essa resposta será decisiva para o
rumo do jornalismo em Angola.
Outra reflexão necessária é sobre o modelo de gestão dos órgãos públicos de
comunicação. Se estes funcionam como empresas, mas sem rendimento satisfatório,
não estará na hora de repensar essa estrutura?
Pergunta-se: que soluções práticas podem ser adoptadas para que o jornalismo
angolano recupere a sua dignidade? Em primeiro lugar, é urgente rever as
condições salariais e de trabalho, para que o jornalista não viva em constante
vulnerabilidade. Profissionais mal pagos não conseguem manter a independência,
pois a sobrevivência fala mais alto.
Em segundo lugar, é fundamental assegurar a liberdade de imprensa como um
direito e não como uma concessão. O Estado deve perceber que controlar a
narrativa não fortalece a democracia, apenas a fragiliza. Uma imprensa livre
não é inimiga, mas parceira no desenvolvimento do país.
Outra solução passa pelo fortalecimento das associações de classe e
sindicatos. Estes devem ter legitimidade para negociar sem medo, evitando que
cada jornalista lute isoladamente. A união da classe é a única forma de quebrar
a lógica de vulnerabilidade e de abrir portas ao respeito institucional.
Seja como for, é inédito que em cinquenta anos de independência nacional se
fale de uma greve de jornalistas. Este facto por si só já marca a história.
Nunca se tinha chegado a esse ponto, o que mostra tanto a gravidade da situação
quanto a coragem dos profissionais que decidiram romper o silêncio.
No fundo, o poder da imprensa em Angola depende menos de títulos e mais da
coragem de quem a exerce. Não há liberdade oferecida; há liberdade conquistada.
Se o quarto poder ainda não tem poder, talvez esta seja a hora de o conquistar.
Não pela violência, não pela submissão, mas pela persistência e pela coragem
colectiva.
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