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O verdadeiro perigo de calar a voz de um povo cansado - Rafael Morais

Ler os sinais do tempo é uma habilidade essencial para qualquer liderança, seja dentro de uma família, de uma instituição, de um grupo organizado ou de um governo. É parte da rotina de balanços, de análises de crise e de prevenção de rupturas. Quando essa leitura falha, abre-se espaço para tensões que poderiam ser evitadas com diálogo e inteligência.

O descontentamento de um povo não nasce de um dia para o outro; ele é resultado de frustrações acumuladas, promessas não cumpridas e da sensação generalizada de injustiça. Diante disso, a reação mais sábia não é encontrar um bode expiatório, mas compreender as verdadeiras causas. Porém, infelizmente, temos assistido a uma tendência perigosa de culpar tudo e todos, menos a nós mesmos.

Hoje está na moda responsabilizar as redes sociais, os opositores, os críticos e até cidadãos comuns por qualquer abalo à imagem do poder. Mas, antes de acusarmos o termómetro social de estar quebrado, é preciso perguntarmos: qual foi a nossa temperatura antes da febre subir? Estamos ouvindo as vozes que clamam ou apenas tentando silenciá-las?

Muitas vezes, quem está de fora enxerga melhor como estamos conduzindo a nossa viatura. Os sinais de alerta sempre existiram. O problema é que, ao ignorá-los, criamos condições para algo maior e incontrolável. Ouvir, às vezes, salva mais do que reprimir. Ignorar essa lógica leva ao famoso arrependimento tardio, expresso na frase: “Se eu soubesse…”. Mas esse pensamento, como sempre, vem depois da tempestade e nunca antes.

Vejamos a realidade contemporânea. Em vários países africanos, incluindo Angola, manifestações pacíficas têm sido tratadas como ameaças à segurança nacional quando, na verdade, são um grito por dignidade. Recentemente, vimos protestos de taxistas e cidadãos comuns transformarem-se em episódios de tensão justamente porque o governo preferiu a repressão à escuta. O aumento do custo de vida, a escassez de oportunidades e a desigualdade não podem ser resolvidos com silêncio imposto.

Fora da África, a América Latina nos oferece lições recentes. No Chile, o aumento da tarifa do transporte público em 2019 acendeu uma revolta que revelou algo muito maior: a crise social enraizada no sistema económico. A resposta inicial foi repressão, mas o resultado foi um movimento tão forte que levou a um processo constituinte.

A história é um testemunho incontornável. Nos anos 80, as revoltas populares que derrubaram ditaduras na América Latina e no Leste Europeu nasceram de um sentimento semelhante ao atual: um povo cansado de ser ignorado. O regime do Apartheid, na África do Sul, tentou calar vozes durante décadas, mas, no fim, o silêncio imposto custou caro.

Até os grandes impérios caíram pelo mesmo erro: subestimar o poder da insatisfação coletiva. O Império Romano sucumbiu não apenas a invasões externas, mas também à incapacidade de responder às crises internas, ignorando sinais claros de exaustão social.

Elementos essenciais para evitar a armadilha

1. Escuta ativa e diálogo permanente
Não basta falar com o povo só em tempos de crise; é necessário ouvir antes que a crise se instale. Fóruns de escuta comunitária e consultas públicas devem ser práticas rotineiras, não emergenciais.

2. Transparência na comunicação
A falta de informações alimenta rumores e aumenta a desconfiança. Quando o governo não fala, alguém falará por ele — e nem sempre com a verdade. Comunicar com honestidade é prevenir o caos.

3. Políticas de alívio imediato
Nem todos os problemas estruturais têm solução rápida, mas gestos simbólicos e medidas temporárias podem acalmar ânimos. Reconhecer dificuldades é melhor do que negar evidências.

4. Reforma antes da revolta
A história mostra que governos que antecipam mudanças evitam rupturas violentas. Investir em políticas sociais, educação, emprego e combate à corrupção é um antídoto poderoso contra crises.

5. Desmilitarização da resposta
O uso da força como primeira solução é um erro estratégico e moral. Forças policiais devem proteger cidadãos, não transformá-los em inimigos. A repressão gera mártires, e mártires geram movimentos.

6. Ler os sinais do tempo com humildade
O maior erro de qualquer liderança é acreditar que a insatisfação é apenas ruído. Em política, o silêncio forçado é apenas o prelúdio do estrondo.

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