Ler os sinais do tempo é uma habilidade essencial para qualquer liderança, seja dentro de uma família, de uma instituição, de um grupo organizado ou de um governo. É parte da rotina de balanços, de análises de crise e de prevenção de rupturas. Quando essa leitura falha, abre-se espaço para tensões que poderiam ser evitadas com diálogo e inteligência.
O descontentamento de um povo não nasce de um dia para
o outro; ele é resultado de frustrações acumuladas, promessas não cumpridas e
da sensação generalizada de injustiça. Diante disso, a reação mais sábia não é
encontrar um bode expiatório, mas compreender as verdadeiras causas. Porém,
infelizmente, temos assistido a uma tendência perigosa de culpar tudo e todos,
menos a nós mesmos.
Hoje está na moda responsabilizar as redes sociais, os
opositores, os críticos e até cidadãos comuns por qualquer abalo à imagem do
poder. Mas, antes de acusarmos o termómetro social de estar quebrado, é preciso
perguntarmos: qual foi a nossa temperatura antes da febre subir? Estamos
ouvindo as vozes que clamam ou apenas tentando silenciá-las?
Muitas vezes, quem está de fora enxerga melhor como
estamos conduzindo a nossa viatura. Os sinais de alerta sempre existiram. O
problema é que, ao ignorá-los, criamos condições para algo maior e
incontrolável. Ouvir, às vezes, salva mais do que reprimir. Ignorar essa lógica
leva ao famoso arrependimento tardio, expresso na frase: “Se eu soubesse…”. Mas
esse pensamento, como sempre, vem depois da tempestade e nunca antes.
Vejamos a realidade contemporânea. Em vários países
africanos, incluindo Angola, manifestações pacíficas têm sido tratadas como
ameaças à segurança nacional quando, na verdade, são um grito por dignidade.
Recentemente, vimos protestos de taxistas e cidadãos comuns transformarem-se em
episódios de tensão justamente porque o governo preferiu a repressão à escuta.
O aumento do custo de vida, a escassez de oportunidades e a desigualdade não
podem ser resolvidos com silêncio imposto.
Fora da África, a América Latina nos oferece lições
recentes. No Chile, o aumento da tarifa do transporte público em 2019 acendeu
uma revolta que revelou algo muito maior: a crise social enraizada no sistema
económico. A resposta inicial foi repressão, mas o resultado foi um movimento
tão forte que levou a um processo constituinte.
A história é um testemunho incontornável. Nos anos 80,
as revoltas populares que derrubaram ditaduras na América Latina e no Leste
Europeu nasceram de um sentimento semelhante ao atual: um povo cansado de ser
ignorado. O regime do Apartheid, na África do Sul, tentou calar vozes durante
décadas, mas, no fim, o silêncio imposto custou caro.
Até os grandes impérios caíram pelo mesmo erro:
subestimar o poder da insatisfação coletiva. O Império Romano sucumbiu não
apenas a invasões externas, mas também à incapacidade de responder às crises
internas, ignorando sinais claros de exaustão social.
Elementos essenciais para evitar a armadilha
1. Escuta ativa e diálogo permanente
Não basta falar com o povo só em tempos de crise; é necessário ouvir antes que
a crise se instale. Fóruns de escuta comunitária e consultas públicas devem ser
práticas rotineiras, não emergenciais.
2. Transparência na comunicação
A falta de informações alimenta rumores e aumenta a desconfiança. Quando o
governo não fala, alguém falará por ele — e nem sempre com a verdade. Comunicar
com honestidade é prevenir o caos.
3. Políticas de alívio imediato
Nem todos os problemas estruturais têm solução rápida, mas gestos simbólicos e
medidas temporárias podem acalmar ânimos. Reconhecer dificuldades é melhor do
que negar evidências.
4. Reforma antes da revolta
A história mostra que governos que antecipam mudanças evitam rupturas
violentas. Investir em políticas sociais, educação, emprego e combate à
corrupção é um antídoto poderoso contra crises.
5. Desmilitarização da resposta
O uso da força como primeira solução é um erro estratégico e moral. Forças
policiais devem proteger cidadãos, não transformá-los em inimigos. A repressão
gera mártires, e mártires geram movimentos.
6. Ler os sinais do tempo com humildade
O maior erro de qualquer liderança é acreditar que a insatisfação é apenas
ruído. Em política, o silêncio forçado é apenas o prelúdio do estrondo.
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