Havendo eleições livres e justas em 2027, e mantendo-se a situação actual, o MPLA não ganhará as eleições. É evidente que, como dizia o antigo primeiro-ministro inglês, Harold Wilson, “em política, uma semana é muito tempo”.
De facto, no mundo político, as mudanças e os
acontecimentos muitas vezes precipitam-se, mudando o curso previsível da
história. Assim, em Angola, restam cerca de 100 semanas para mudar o cenário de
derrota. O problema é que as razões da provável derrota do MPLA são demasiado
estruturais para se inverterem rapidamente.
Em primeiro lugar, o partido caiu na chamada
“armadilha de Tácito”, expressão que nasceu dos escritos de Cornélio Tácito, um
dos maiores historiadores da Roma Antiga, conhecido pela sua crítica mordaz à
corrupção e à decadência moral do poder imperial e segundo o qual os
governantes, cercados por bajuladores e isolados da realidade, acabavam por
perder o sentido de justiça e a ligação com o povo. A “armadilha de Tácito”
refere-se ao fenómeno político em que um governante, mesmo tomando medidas
correctas ou populares, continua a perder apoio e credibilidade junto da
população. A ideia é que, quando um governo está demasiado desacreditado,
qualquer medida que tome será vista com desconfiança – se faz algo bom, isso é
visto como oportunismo; se faz algo mau, confirma-se o que já se pensava. É uma
espécie de ciclo de descrédito que se retroalimenta, tornando quase impossível
alterar a percepção negativa. E a história repete-se – em Luanda como em Roma.
Em segundo lugar, há o problema económico, que é
profundo e afecta toda a população, com a provável excepção de uma pequena
elite com acesso aos círculos centrais do poder.
Muitos ficaram admirados com a recente intervenção do
deputado do MPLA Paulo de Carvalho, que criticou o governo liderado pelo seu
próprio partido. Na verdade, quem tenha estado presente na Primeira Conferência
Nacional sobre Boa Governação, organizada pelo inspector-geral da Administração
do Estado, João Pinto, que ocorreu em Luanda em Janeiro passado, terá assistido
a uma intervenção do mesmo deputado na qual já se percebia o exacto mal-estar
que afecta a sociedade angolana e corrói a popularidade do MPLA. Na altura,
Paulo de Carvalho, falando como professor catedrático de Sociologia e tomando
como exemplo o seu próprio caso, explicou o descontentamento da sociedade
angolana: é que em 2017 o valor do salário correspondia a cerca de 5000
dólares, ao passo que agora equivale a uns meros 1000 dólares (como cito de
memória, os valores não serão exactamente estes).
Com a flexibilização total da taxa de câmbio do kwanza
face ao dólar (e às outras moedas), a população pertencente às elites perdeu
mais de metade do seu poder de compra. Este mesmo fenómeno alastrou-se às
classes médias e afectou todo o povo, o que, aliado à persistente inflação e ao
desemprego, criou uma situação de extremo empobrecimento generalizado, desde os
professores universitários ligados ao regime até aos pobres residentes nos
musseques.
Nos termos do recente relatório oficial da Organização
das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre 2021 e 2023,
registou-se um agravamento significativo da situação alimentar em Angola. O
número de pessoas desnutridas aumentou de 6,8 para 8,3 milhões, reflectindo uma
deterioração das condições nutricionais no país. Cerca de 79,2% da população –
aproximadamente 28 milhões de angolanos – enfrentou insegurança alimentar
moderada, enquanto 11 milhões vivem em situação de insegurança alimentar grave.
Em 2023, 1,3 milhões de pessoas foram afectadas por níveis elevados de
insegurança alimentar aguda, exigindo resposta humanitária urgente.
Sublinhe-se que a fome que assola as famílias mais
pobres em Angola tornou-se uma realidade brutal e inaceitável. Abundam os
relatos sobre famílias forçadas a buscar sustento nos restos descartados pelos
mais afortunados, recorrendo ao lixo como única fonte de sobrevivência. Essa
situação não apenas evidencia a inexistência de políticas públicas eficazes,
mas também exige uma resposta urgente e contundente por parte da sociedade e do
Estado, resposta essa que não se tem verificado. É fundamental encarar esta
tragédia com a seriedade que merece, rompendo o silêncio e a indiferença diante
de um sofrimento que todos os dias dilacera milhares de vidas.
Ainda hoje, não se entende a razão para a
flexibilização abrupta da taxa de câmbio do kwanza. Nem na Argentina de Javier
Milei – o novo herói (e até ao momento com sucesso no que toca ao controlo da
dívida pública e da inflação) do neoliberalismo – se procedeu à flexibilização
total do câmbio do peso (moeda argentina) de forma imediata. Milei não
liberalizou totalmente o peso argentino logo após assumir a presidência em
2023, embora essa fosse uma das promessas centrais da sua campanha. Em vez disso,
adoptou uma série de medidas iniciais para estabilizar a economia, como a
desvalorização controlada do câmbio oficial, a proibição da emissão de moeda
pelo Banco Central para financiar o Tesouro, a suspensão de novas obras
públicas e a transformação de empresas estatais em sociedades anónimas com
vista à privatização. Milei optou por uma abordagem gradual, dando prioridade
ao equilíbrio fiscal e à estabilização do mercado cambial.
Em Angola, foi tudo feito sem planeamento, sem
preparação e à bruta. Porquê?
A isto acresce que as políticas do Fundo Monetário
Internacional (FMI), devido ao seu efeito restritivo, acentuaram a pobreza e
não tiveram sucesso: a despesa pública continua irracional, a inflação pouco ou
nada abrandou e, sobretudo, o grande objectivo do FMI falhou: as finanças
públicas mantêm-se extremamente frágeis.
Na verdade, os gastos públicos têm seguido uma
trajectória alarmante de irracionalidade, com adjudicações presidenciais
bilionárias realizadas sem concurso público nem fiscalização adequada,
comprometendo a transparência e a boa gestão dos recursos do Estado. Esta
prática, somada ao aparente reaparecimento (ou manutenção) da corrupção grave
em diversas esferas do poder, minou a confiança da população e agravou ainda
mais as desigualdades sociais.
Finalmente, a manutenção da mesma equipa económica,
liderada por Lima Massano e Vera Daves, com resultados muito questionáveis e
que geram crescente insatisfação popular, reforçou a percepção de estagnação e
favorecimento político, em detrimento de reformas estruturais urgentes e de uma
verdadeira renovação na condução da política económica.
Ao contrário de muitos, entendo que a actual
impopularidade do MPLA resulta directamente desta incapacidade política de
gestão económica e do empobrecimento acelerado que as opções
económico-financeiras do executivo provocaram.
Não é tanto uma questão de direitos, liberdades,
abertura política ou prática democrática, mas sim uma enorme falha económica –
porque, como diz um velho adágio, primeiro é preciso viver, e só depois
filosofar (“primum vivere, deinde philosophari”). Tradicionalmente atribuído ao
filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), e retomado por pensadores como
Schopenhauer (1788-1860) e Kierkegaard (1813-1855), a ideia central deste
adágio é que, antes de o ser humano se poder dedicar à reflexão filosófica ou à
busca do sentido da vida, precisa de garantir as condições básicas da
existência, nomeadamente a alimentação, a segurança e a sobrevivência em geral.
Para os dirigentes do MPLA, que se formaram na escola
marxista e terão uma visão determinística da história, deverá ser fácil
perceber o momento que se vive no país: as condições materiais
(infra-estrutura) não correspondem às instituições (superestrutura), razão pela
qual há condições objectivas para uma revolução, através da qual se reponha a
correlação entre condições materiais e poder.
Assim, a tarefa com que o MPLA se defronta nas
próximas 100 semanas é de extrema dificuldade, pois o bem-estar económico não
se decreta e a imagem negativa absorvida por largas camadas da população não se
reverte num instante, sobretudo se algumas lideranças – como nos confessam
fontes reformistas do partido – insistem em manter-se alheadas da realidade:
“Não querem ouvir nem perceber. Existe uma cegueira recheada de teimosia e
arrogância.”
No final de contas, em Angola, não é a oposição que se
prepara para ganhar as eleições – até porque não há sinais de propostas
estratégicas da UNITA capazes de superar as dificuldades do país e melhorar o
bem-estar dos angolanos. É o próprio governo que, ao recusar o contacto com as
realidades populares, vaticina a sua deposição.
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