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A entrada de Jardo Muekalia no PRA-JÁ muda o jogo - Pedro Águas

Todo partido tem um instante em que passa do ruído à seriedade. Para o PRA-JÁ Servir Angola, esse instante mede-se pela entrada de Jardo Muekalia. Por qualquer critério, é uma das aquisições mais consequentes de Abel Chivukuvuku: reforça a disciplina de mensagem, alarga a abertura internacional do partido e sinaliza aos indecisos que a PRA-JÁ está em modo executivo.

Porque Muekalia? Porque traz activos que não se compram nem se fingem. É um profissional da política de fundo — formado na diplomacia de guerra e paz, na organização partidária e no combate mediático. Há décadas que faz a ponte da diáspora, falando com igual fluência para angolanos dentro e fora. E cose três fios numa só narrativa: instituições primeiro, adultos ao leme e abertura, por princípio, a coligações em 2027. Esse trio ganha votos.

Falemos sem rodeios. Durante anos, Abel Chivukuvuku foi tratado com injustiça por quem lhe devia a visibilidade. Retirou desconhecidos da obscuridade, colocou-os em palco e ajudou-os a brilhar. Alguns confundiram luz emprestada com aurora própria. Após as rupturas que se seguiram à ascensão da CASA-CE, houve quem se convencesse de que poderia encostá-lo à margem e prosseguir o projecto. A maioria desvaneceu em silêncio. Não é ajuste de contas; é uma lição de física política: sem âncora, os botes derivam.

Persiste, ainda, o mito de que Chivukuvuku se incomoda com personalidades fortes. O contrário é verdadeiro. A política de coligação séria preza líderes que recrutam pesos-pesados, os sentam à mesma mesa e mantêm todos apontados ao mesmo objectivo: conquistar poder para governar, não para alimentar egos. A incorporação de Muekalia é exactamente esse gesto — um líder sem medo de estatura, bastante seguro para partilhar a primeira linha e focado na tarefa colectiva.
A adesão de Muekalia fere a UNITA muito para além do que qualquer comunicado admitirá. Durante anos foi um dos seus rostos internacionais mais bem conectados. Em Washington, é um insider consumado — décadas na cidade, a mover-se com naturalidade entre academia, negócios, policy e media. A sua agenda cruza administrações norte-americanas, think tanks, fundações, empresas, jornalistas e decisores africanos. Quando um nó destas redes muda de campo, o sinal é inequívoco: a PRA-JÁ ganha uma capacidade imediata de navegação nos circuitos internacionais que a UNITA deixa de poder reivindicar.

Chivukuvuku precisará de canais nos Estados Unidos — fundações sérias, plataformas de think tank, redes filantrópicas e americanos de elevado património que gostam de se acautelar envolvendo-se cedo com actores emergentes. Um dos “investimentos” mais inteligentes desses meios é apoiar figuras credíveis capazes de levar projectos da ideia à execução. Muekalia é isso mesmo: um advogado de causas eficaz, um interlocutor persuasivo e um estratega que traduz prioridades angolanas na linguagem de Washington e do espaço transatlântico.

A reputação acompanha-o: inteligência fora do comum — discreta, sofisticada, culta. Os media e as estruturas de policy ocidentais atendem-lhe as chamadas; líderes e opinion makers africanos respeitam-lhe os briefings. Na história interna da UNITA, ajudou a moldar a análise externa e o trabalho de informação — frequentemente associado à tradição do CADIS — cuja história integral permanece por contar. Politicamente, equivale à contratação de um Messi, Mbappé, Ronaldo e Vinícius numa só figura: poder de fogo, versatilidade e estrela.

Com Muekalia a bordo, espere-se maior rigor na mensagem, relacionamento internacional mais inteligente e um debate de políticas mais sério sobre eleições, descentralização e clima de investimento. Espere-se, também, uma postura negocial mais firme à medida que se desenham alinhamentos na oposição. A PRA-JÁ sinaliza que pretende negociar a partir da força, não pedir espaço.

Angola vota em listas fechadas. Partidos que desejam projectar competência colocam figuras credíveis no topo dessas listas e convertem confiança em mandatos. Se a PRA-JÁ mantiver este nível de recrutamento e a lógica de coligação assente em princípios, o desfecho é linear: Jardo Muekalia terá assento no próximo parlamento após as eleições de 2027 — e a PRA-JÁ parecerá menos uma marca de protesto e mais uma proposta de governo.

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