O Governo nunca foi capaz de assegurar o acesso a cuidados de saúde, salvo se outra acepção quisermos atribuir à ideia de cuidados médicos. O exercício da medicina digna deste epíteto, quase perde para um magismo alternativo à indiferença do imobilismo enraizado nas instituições do estado. Médicos e enfermeiros, tudo o resto, fazem das tripas coração. Aposto que no espírito dos cultores das tradições mais necrólatras dissipa-se a paixão e o respeito pelos que já descansam. Não há tempo para velar nem há fôlego para venerar a memória dos que à sua volta vão partindo todos dias. Consumidos pelo cansaço de fugir da morte precoce damos connosco esgotados na lida com as perdas. Os nossos governantes não deixam a sociedade viver senão sob consternação infligida pelo luto presente no dia a dia das famílias.
Agora, vejam só até onde vai o desprezo pela vida do angolano. Vejam quanto vale a vida do cidadão aos olhos dos nossos governantes. Como pode uma pequenina, mas substancialmente gigantesca e diferenciadora, tábua de salvação, ser subtraída àqueles que se debatem no leito da sua doença, do seu sofrimento físico e da sua angústia espiritual. O que no estrangeiro não escapa ao alcance do poder da mão humana, não o é, nem laxativamente é controlável na malha nacional que por aqui chamamos sistema de saúde. Então, no plano de evacuamento subitamente comunicado ontem, dia 24 de Maio, aos doentes em JUNTA MÉDICA - em tratamento em Portugal -, qual é o racional na decisão de interromperem o tratamento de pessoas em recuperação? Assim de repente, o risco de vida que justificou a atribuição do benefício da Junta Médica a esses pacientes, já não conta? A proteção e a defesa destas vidas não mais importam às autoridades angolanas? Todas as almas cuja vida é posta em causa pela anunciada decisão de repatriar doentes, de Portugal para Angola, desde logo a partir do dia 1 de Junho próximo, na óptica do governo serão como que restolho social?
Depois da célebre afirmação da ministra da educação, na voz da qual só fazem falta os que estão no país, aqui, desta decisão, podemos extrair que só fazem falta os saudáveis. Se assim for, em nada nos surpreende o governo. Triste e altamente preocupante será constatar, aqui e agora, que no passado alguém disseminou uma doutrina segundo a qual os doentes são um fardo para sociedade. Portanto, há que os entregar à uma solução (final) asséptica. Devem as nossas autoridades consciencializar-se que mimetizar seja o que for, consciente ou inconscientemente, em última análise o que conta, e conta muito, mesmo, é o simbolismo das acções que de algum modo possam reavivar os maiores traumas que subsistem na memória colectiva. Caminhar para a crueldade e para a execrabilidade parece que se está tornando mais fácil a medida que avançamos no século das expectativas canceladas.
E esta perspectiva trágica, das famílias angolanas em tratamento em Portugal, é mesmo para levar a sério. Claro que se estivéssemos a falar de privilegiados era um não assunto. Não é o caso! Facilmente se deslindam as incoerências da operação. Qualquer um que se encontra em junta médica sabe que dentre os países de acolhimento, só mesmo Portugal não condiciona a prestação do tratamento médico à um pagamento prévio das faturas geradas no sistema. Não fosse assim os doentes encaminhados para outros Estados, nomeadamente a África-do-Sul, não testemunhariam a paralisação do seu tratamento por falta de solvência das autoridades consulares angolanas. Mais simples ainda, e do senso comum, é a noção de que parar tratamentos pode equivaler o precipitar (consciente) de um quadro irreversível, senão mesmo fatal. Senhor Presidente da República:
Tenha a benevolência e a magnanimidade de não deixar o governo vender falsas expectativas a quem não tem outra esperança - senão a âncora que lhe suporta neste momento. Por favor, não brinquem com a vida de seres humanos e com os sentimentos e preocupações dos seus. Daqueles do círculo familiar dos pacientes que o anunciado plano visa repatriar. Àqueles que vivem na fronteira da ambivalência da esperança e da angústia. Em ocasiões recorrentes, o Sua Excelência Senhor Presidente da República afirmou ser um exímio jogador de xadrez. Pois, se Sua Excelência o for, de facto, pode procurar não ceder nem permitir que alguém ceda a tentação de disferir um golpe contra um conjunto de pessoas vulneráveis e indefesas. Por mais santimonial que a justificação possa parecer, contudo, pode crer que a intencionalidade subjacente é notória e é manifestamente abominável.
Pensar que são raras as situações em que a ironia e a realidade parecem trocar
de papeis em nada se assemelha à niilismo. Mesmo nós, as gerações do século XXI
que cremos e acreditamos em tudo, dificilmente entre nós estará alguém à espera
de topar e de sentir o encanto da cena mítica da fundação da cidade de Roma. A
nossa imaginação pode até tentar, mas nada a ajuda a tocar quanta generosidade
transbordou de uma loba que deixou a alcateia seguir o seu caminho e deu do seu
leite a preservar a vida de dois bebés icónicos: Rómulo e Remo. Quem diria! Uma
loba prescindir do seu vínculo ecossistémico (de sobrevivência) para salvar a
vida de potenciais inimigos da sua própria existência.
Mas aqui com o nosso governo angolano tudo acontece ao contrário. Todos dias chama um novo lobo para abrir as suas mandíbulas e engolir o que resta – não mais nas nossas mesas, porque já lá nada mais resta, mas, deglutir a fé que ainda nos prende à vida. Não resta já uma única palavra do governo em que nos possamos fiar. Porque se o mito reza que graças ao leite de uma loba Roma nasceu e despontou para uma grandeza vindoura, parece que nós (os angolanos) fomos lançados ante as mandíbulas bem estiradas de um lobo implacável, impaciente e faminto. O nosso estado, o estado angolano, é como uma parafernália disfuncional que nem para com os mais vulneráveis se sensibiliza ou se compadece.
Pelo direito de acesso à saúde e a proteção da vida, no próximo dia 30 de Maio,
vamos nos manifestar defronte aos Consulados de Angola em Portugal;
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