Nesta pequena esquina do tempo é meu desejo que os relógios façam uma pequena paragem no seu eterno movimento rumo a um futuro ainda incerto e eu possa reflectir com cada leitor, sem pressas, o que foi a gesta das lutas libertárias pró-independentistas em Angola de modo a perceber-se quanto os estudos neste domínio do conhecimento têm andado todos estes anos carecidos de trabalhos sérios.
De facto, os saberes relacionados com a História
contemporânea de Angola, de 1950 para cá, têm sido objecto de toda uma sucessão
de interferências a reboque de silêncios e hermenêuticas adulteradas. Em
primeiro lugar por manipulações do Poder político dominante em Angola com a sua
“fecundíssima fauna” de imbecis, e depois pelos círculos intelectuais e
académicos na própria Angola, a que se associam também as esferas da
intelligentsia portuguesa e brasileira. Uns e outros, na essência, não se
diferenciam nos métodos pouco ortodoxos que utilizam.
Para exemplificar, trago a este espaço os raros estudos que se publicam relativamente à tragédia vivida por Viriato da Cruz, um dos maiores próceres do nacionalismo angolano que findou os seus dias humilhado e violentado na República Popular da China depois de ter sofrido horrores às mãos dos seus próprios companheiros do MPLA, como iremos ver mais à frente. Os registos de análise e interpretação saídos desses estudos quase sempre são do mesmo quilate: conclusões grosseiras, deturpadas, por vezes tão desonestas que desafiam as barreiras da inteligência.
São tantas as ocultações sobre Viriato (e não só) que se
colhe a impressão de haver, especialmente nos círculos do conhecimento e nas
catedrais de investigação das Universidades, uma perda do que se pode designar
por bússola. Desta perda resulta um pântano sombrio de trabalhos plasmados pela
falta de rigor e objectividade. E, acima de tudo, por interesses alheios ao
conhecimento da história.
Resgatar deste crisol de deturpações a verdade sobre a tragédia
política e humana de Viriato, impõe-se qual um dever de construção da
consciência histórica nacional do povo angolano. No entanto, um sério «apego
sujo» se interpõe no caminho deste dever histórico: o mito Agostinho Neto. Mito
diante do qual os historiadores capitulam contaminados pela hipocrisia e pela
propaganda do regime político de Luanda que projecta de Neto a imagem
nietzsheana do Super-Homem. Um deus de carne e osso. Claro que aplicado a Neto
este conceito de super-homem peca por uma deformação histórica fantástica.
Porém, o que mais espanta é haver Universidades que se dispõem, na qualidade de
instituições, a colaborar no culto a esta transfiguração (contagiadas também
pela “síndrome do culto ao salvador”) e a converter Neto numa personagem, a bem
dizer, dotada de espessura religiosa, acima do bem e do mal.
Viriato, pai fundador e arquitecto do MPLA em 1960, é
inegavelmente uma das maiores vítimas da esquizofrenia sectária e conservadora
do bando de chacais que comanda os destinos do Estado angolano. Do cérebro de
Viriato brotou o projecto de criação daquela formação política, foi ele que lhe
deu vida, identidade e músculo militar para iniciar a luta insurreccional.
Contudo, desde cedo que invariavelmente se assiste ao contínuo assassinato simbólico
da memória de Viriato tendente a torná-lo ignorado aos olhos das novas
gerações. No panteão do MPLA só existe um nome, o de Agostinho Neto.
A fantasia que sustenta o mito Neto e a aura de
“sacralização” que se lhe empresta, encarna algo de extremamente nocivo para o
imaginário da sociedade angolana permanentemente sujeita a manipulações, as
mais absurdas, com relação aos factos da História. Neto cometeu crimes
hediondos no período da luta armada de emancipação. Por narcisismo, inveja,
vingança e despeito ordenou a eliminação física de dúzias de companheiros seus,
entre os quais figuras centrais na hierarquia política e militar do MPLA, da
estirpe de um Daniel Chipenda que se salvou por uma unha negra, ao passo que
outros não tiveram a mesma sorte. Terminaram os seus dias sacrificados pela
vesânia tirânica de Neto. Dir-se-a que o ditador travava uma guerra consigo
mesmo ao aniquilar aquele punhado de comandantes, todos com notáveis provas
dadas nas adversas condições da luta guerrilheira.
Na mesma senda de loucuras políticas Neto deixou um
inextinguível rastro de sangue na sua curta presidência à testa do Estado por
ele aparelhado de falsas estruturas e conceitos a que chamou de Estado popular
e socialista, quando na realidade empurrou Angola para a órbita do que havia de
pior nas geografias políticas do mundo. Inaugurou um Estado terrorista, de
feição nacionalista radical, comandado por uma burocracia xenófoba,
unipartidária, militarista, policialesca, excludente, injusta e intolerante e inimiga
das liberdades básicas essenciais. Um poder político detestável, hostil à
verdade e à crítica, cujo Grande Chefe reproduziu no mais depurado estilo
autocrático as velhas taras psicopáticas de Stalin, de Mao Zedong e de outros
facínoras políticos que estiveram ou estão à testa de governos no mundo. Foi
assim que, amparado num pretexto vil, Neto dizimou a ferro e fogo grande parte
da militância pró-soviética do MPLA no sempre lembrado 27 de Maio de 1977 e,
concomitantemente, promoveu uma matança civil nunca vista contra pessoas sem
vínculos políticos oficiais e sem nenhum outro tipo de militância. Uma tragédia
que deixou o país de luto até hoje. Somando-se a este assassinato em massa a
perseguição movida contra toda a velha guarda pensante (social-democrata) do
Movimento apodada de “traidora” e aviltada em calabouços e torturada
selvaticamente.
Uma paisagem macabra logo nos alvores da independência
nacional responsável por comprometer a chave política da esperança ante um
futuro colectivo que se desejava promissor. Um futuro que redundou em desastre
e sofrimento para o seu povo. Sem esquecer, logo no início da vida do MPLA, a
conduta atrabiliária de Neto na Conferência Nacional do Movimento nos idos de
1962 ao proibir que a lista rival de Viriato da Cruz fosse escrutinada. Um acto
de prepotência que suscitou nos delegados presentes à assembleia uma pesada
atmosfera de insatisfação e constrangimento. Por último, sem o mais pequeno
átomo de decoro, declarou que iria tomar a presidência do Movimento para si, quer
concordassem ou não com ele. Um gesto de desaforo e temeridade que confirma o
tipo de móbil que lhe incendiava os subterrâneos da mente: o poder soberano
pertencia-lhe por inteiro, sem compartilhamentos.
Nesta equação de supremacia absoluta Neto considerava-se
investido de qualidades superiores, de ser o predestinado para ocupar o trono
do Movimento. Ele celebrava-se a si mesmo como o único capaz de ter mão segura
sobre o leme do partido-guerrilha. Nenhum outro traço, por sinal, é tão
revelador quanto este (a síndrome do escolhido) para se aquilatar da
personalidade de Neto, o seu desmesurado egocentrismo cristalizado num forte
pendor narcisístico que havia de se manifestar inalteravelmente no sentimento e
na vontade de que acima dele não podia haver mais ninguém. O que veio depois
foi consequência desta afirmação de superioridade plena do seu poder que fez da
força bruta o seu principal pilar. Reforçado mais tarde pelo “culto à
personalidade e aceite pela linguagem da mudez do seu exército de cortesãos submissos
e bajuladores. Por incentivo desta forja de aplausos dos seus veneradores
nascia então o ditador idolatrado até ao presente.
Ante o exposto, pode concluir-se que o carácter “sagrado” e
“messiânico” que os seus panegiristas e facciosos lhe outorgam encerra uma
carga subjectiva debaixo da qual se escondem imensos perigos. Juntem-se a isto
os interditos e as censuras sob a alegação de que não há nada ou pouco a
discutir na biografia política de Neto, por eles qualificada de exemplar, a não
ser para o incensar pelas suas “superiores qualidades, sobretudo humanas e
literárias”. Claro que se trata de um argumento sem nenhum valor, na medida em
que se sabe quão controversos são os interstícios dessa biografia. O tipo
humano e ideal criado em torno da figura de Neto (canonizado como o arquétipo
de pai da pátria, o herói fabuloso e único) assemelha-se a uma bomba que urge
desarmar, para utilizar uma noção do escritor polaco Adam Zagajewski. Uma bomba
de efeitos nefastos, tantos os descaminhos e os erros trazidos ao processo de
reconciliação nacional. Sem esquecer as graves rupturas e escombros havidos no
passado e que têm abalado a grande família MPLA, desde sempre confrontada com
ciclos permanentes de turbulência e divisões internas, pois nem toda a militância
(incluindo as franjas simpatizantes) aceitam estes delírios ficcionais.
Afinal de contas, como desarmar o mito Neto e acabar com os
tabus que o respaldam? Não disponho de uma harpa dourada como os profetas do
destino, por conseguinte é-me difícil responder a esta questão quando se olha
para uma boa parte dos estudos que estão aí contaminados pelo vírus do
partidarismo. Um vírus que entorpece e frauda a capacidade de análise ponderada
e racional de uma boa parte da intelligentsia angolana e de largos feudos
académicos em Portugal e Brasil, estes últimos maioritariamente perfilados no
papel de reservas ideológicas de apoio ao MPLA e ao seu poder de Estado.
Contam-se por inúmeros os estudos impregnados por parcialismos políticos.
Praticamente não se questionam os atalhos sombrios da História de emancipação
nacional atravessados por relatos e situações pungentes de violências e mortes
e por toda uma galeria de assassinos hoje reverenciados como heróis. O
resultado é subsistir um enorme vazio historiográfico que abre brechas para que
a burocracia dinossáurica do MPLA se sinta à-vontade para restringir, manipular
e explorar em proveito próprio os horizontes culturais do país e abusivamente
introduzir, a coberto de critérios partidários, rectificações no conteúdo das
propostas curriculares e dos manuais didáticos adoptados no ensino da História.
O que significa dizer que, sendo este o ponto nuclear no
quadro da hermenêutica histórica, a chamada “história pesada”, assim definida
pelo historiador alemão Bodo von Borries, os estudiosos sistematicamente a
ignoram e, no seu lugar, privilegiam as visões simplistas, canónicas. Terreno
propício a distorsões e fragmentações do passado e da história em proveito dos
tiros das ideologias.
Deplorável o que se observa. As minorias nativas pensantes e
os historiadores estrangeiros, estes ainda que indirectamente, dão a sua
aprovação para que a censura partidária sobre a Histórica medre e não se fale
dela. Falseiam-se os factos e falseia-se o solo donde são arrancados e
converte-se a história numa caricatura. Endogamia política eis, numa palavra, o
rosto por trás do qual se esconde este alinhamento ou tolerância intelectual
com o Partido dominante. Presos a tabus, parece que os historiadores evitam
desenterrar o enigma da esfínge em Agostinho Neto; da mesma forma que evitam
despertá-lo do seu sono eterno e desmontar todo o arsenal político da sua
trajectória, temerosos talvez da sua sombra, tão presente e esmagadora; e, não
menos, devido ao culto exagerado e doentio que se lhe dispensa, proporcional ao
culto a uma figura bíblica.
Realmente ninguém ousa mexer no estranho tabuleiro da
História e na posição das peças que o ocupam. Neto nesse tabuleiro marca a
posição privilegiada e única de rei dos reis. Viriato, personagem fundacional
do MPLA, ao contrário, dir-se-ia não existir. Apenas existe pela sua
invisibilidade. O mito Neto apaga tudo à sua volta. Até a memória dos
fundadores do MPLA se esfumou e em todos estes anos tão-pouco é lembrada e homenageada,
permanece obscurecida pelas crenças e alucinações políticas de quem governa
Angola.
Intercalo aqui uma pequena descrição de episódios criminais
relacionados com acções torpes de Neto contra Viriato que os estudiosos em
regra excluem da suas abordagens. Estamos a falar de toda uma espiral de abusos
de poder, perguições, sequestros, mortes e outros crimes afins. Recuemos até 7
de Julho de 1963 em Léopoldville, data fatídica em que Neto pela primeira vez
exibiu de si a face pletórica de um político barbaresco. Na noite desse dia
subrepticiamente pôs-se em marcha uma operação de força secundada por gendarmes
congoleses subornados por Neto com a finalidade de invadirem a pensão onde
Viriato se hospedava e prendê-lo. À testa dessa legião (que mais parecia uma
quadrilha de malandros) destacou-se uma personagem duvidosa, Manuel Guedes dos
Santos Lima (futuro escritor), que se distinguiu por uma trajectória política
cheia de sombras. Na época integrava a órbita dos notáveis do Movimento e
respondia pelo comando do Departamento de Guerra. Um leal servidor de Neto,
sempre pronto para toda a sorte de serviços, inclusive para os menos
edificantes. Durante o tempo da sua vassalagem ao Chefe ele acreditava na
justeza dos seus actos.
Ora, quando se deu o assalto à pensão, Viriato tinha acabado
de chegar dias antes à capital do Congo procedente de Argel. Ao ser preso e
retirado da hospedaria debaixo de um aparato de ostensiva violência, nenhum
respeito e dignidade se lhe deferiu e tão-pouco se levou em conta o seu estatuto
de ex-secretário-geral do MPLA. Lima deu o primeiro exemplo de total desfaçatez
ao desferir em Viriato uma forte punhada. Arrancou-lhe os óculos do rosto e
despedaçou-os com o peso das suas botas ao mesmo tempo que soltava gritos de
satisfação e vomitava injúrias contra Viriato apodando-o de comunista.
Seguiram-se os restantes malsins que surraram Viriato de forma desalmada, a
golpes de bastonada, socos e pontapés. Caído no chão, o bate-bate selvático não
parou. Continuaram a espancá-lo com redobrada intensidade, possuídos de uma
fúria primitiva, enquanto por outro lado o achincalhavam e o cobriam com os
insultos mais obscenos. Viriato arrastava-se indefeso, a gemer de dor, coberto
de sangue. Neto e a camarilha de dirigentes que o cercava sorriam empolgados,
em estado de entusiasmo violento. Festejavam a vitória iguais a demónios
perdidos de loucos. Haviam conseguido o que queriam. Viriato finalmente
achava-se prostrado aos seus pés, insignificante, derrotado.
Esclareça-se que dois dias antes a facção de Viriato,
oponente de Neto, reunida em Assembleia Geral decidira retirar toda a
autoridade ao Comité Director saído da Conferência de Dezembro de 1962 e votar
num novo Comité suficientemente idóneo, garante da unidade, capaz «liquidar
todas as divisões no seio do MPLA», tendo em conta a conduta prepotente de Neto
na forma como se fez eleger no conclave de 62 ao apossar-se do cadeirão
presidencial sem o escrutínio dos seus pares. Salvo o apoio de um núcleo de
”intriguistas” e “caluniadores” que ele converteu nos seus escudeiros. Foi tão
grande a tormenta gerada por esta unilateral de Neto, que o Movimento se cindiu
em dois grupos. Os militantes ficaram à deriva, uns entrincheirados nas suas
fobias e tapumes ideológicos e outros numa relação identitária com as respectivas
lideranças. O cepticismo relativamente ao destino do MPLA aumentou. Em vez do
diálogo e de acordos selados no seio da organização passaram a imperar os
antagonismos, cada dia mais crispados e violentos.
A arte do plebiscito que conforma a base da cidadania e a
existência de uma comunidade de modo algum se combinava com a personalidade
política de Neto. Aos seus olhos o desafio dos seus críticos internos equivalia
a um gesto gravíssimo de desobediência ao seu domínio personalista, algo que o
seu ego inflamado pela soberba e pela codícia de poder jamais podia tolerar.
Perdeu a cabeça e optou pela lei do ferro ou da bala, tal qual se descreve em
cima.
Mesmo assim, a brutal reacção anti-viriatista daquela noite
não satisfez plenamente o conturbado psiquismo de Neto. O calvário de agressões
a Viriato afigurava-se-lhe pouco. No seu cego afã de sadismo e vingança não
havia limites para a humilhação de quem se lhe opusesse ou criticasse. A
grandeza da sua liderança, no seu entender, tinha de ser protegida com sangue.
Por isso, determinou que Viriato fosse posto a ferros em Lufungula, uma cadeia
medonha administrada pelo Estado congolês, onde durante dois dias o submeteram
às piores punições físicas e morais e às privações mais inumanas que quase o
expuseram ao risco de perder a vida.
O tufão de violências, entretanto, não se deteve nesta
fronteira. Mais de quatro dezenas de militantes viriatistas, também eles
vítimas sacrificiais do ódio de Neto, sofreram idênticas crueldades. Muitos
foram alvo de agressões selvagens dentro das próprias habitações pelas milícias
de Neto que as invadiram a pontapés derrubando portas, segundo relatos de
moradores de alguns bairros de Léopoldville que testemunharam a alucinação dos
netistas e o alvoroço por eles provocado. Outros dezessete despediram-se do
mundo ceifados pelos métodos extremos de violência já então devastadores nas
entranhas do MPLA.
Naquela hora parecia que o universo inteiro se cobrira de
trevas e uma tempestade de insanidade se abatera sobre os homens. Em simultâneo
com a perda de vidas humanas, a verdade, o espírito livre e a crítica também se
perderam. Sairam derrotados, petrificaram-se, sucumbiram sequestrados por uma
pesada escuridão e no seu lugar despontou no MPLA um ambiente maléfico de
mentiras e artifícios políticos que perduram até aos nossos dias.
Dirigido depois disso pelo arbítrio, pela ameaça e pela
demência de uma liderança autoritária e sem controlo, o Movimento baixou ao
reino das sombras, encurralado na paranoia do supremacismo partidário e incapaz
de entender quem pensava diferente. A fobia contra os dissidentes e desafectos
tornar-se-ia obsessiva e perigosa. Um bom número de militantes egressos das
fileiras do MPLA amargou todo o tipo de represálias. Ora perseguidos, ora
mortos.
A trágica noite de 7 Julho, que eu prefiro designar por
“noite dos escorpiões”, por certo representou o prelúdio de inúmeros outros
crimes que viriam a brotar mais adiante na linha do tempo, os quais, apesar de
não serem mencionados pelos historiadores e permanecerem encobertos até hoje
pelos inquisidores da ordem partidária, mancham de sangue as biografias de Neto
e do MPLA. E fazem do “mito” indiscutivelmente uma figura histórica criminal.
Os graves delitos por ele consumados desde o início do seu mandato como presidente
do Movimento desmentem a estafada imagem que se criou dele, de “humanista”, não
obstante a sua condição funcional de médico, de alguém que salvava vidas ou as
curava das suas doenças. Neto na sua essência não era um homem bom no sentido
moral e ético da palavra. Faltava-lhe empatia com a humanidade, a sua
personalidade narcisista criou um deserto dentro do MPLA, pulverizou a utopia
da unidade, dividiu mais do que agregou e foi uma espécie de Golem, o falso
salvador na peça dramática do poeta russo H. Leivick que prometia a libertação
restauradora da união, embora só oferecesse a violência.
Este foi, digamos, o combustível da dinâmica de Neto em cada
instante do fluxo da história. O combustível do autoritarismo e da morte, duas
ameaças continuas no MPLA presentes nos dias que correm. Dois anos depois
daquela noite as “brasas fumegantes” do ódio de Neto voltaram a crepitar sobre
velhos companheiros. Desta vez contra Matias Miguel (ex-1.º vice-presidente do
MPLA) e José Luís Miguel, ambos abatidos por ordem expressa de Neto na vila
militar de Dolisie em ritual marcado por requintes de crueldade e que culminou
com a cabeça de ambos estouradas a tiro de pistola pelo comandante Fernando
Manuel Paiva (“Bula Matadi”). Capitaneava a turba de matadores Lúcio Lara, alter-ego
do ditador e seu Satã, que teve ao seu lado na cena do crime outros chefes
militares, seus capatazes, todos conhecidos.
Percebendo nesta imolação dos seus lugares-tenente um sinal
de perigo eminente, visto que a qualquer instante as garras mortíferas de Neto
o podiam igualmente alcançar, Viriato abandonou a Argélia (onde se estabelecera
doente após a prisão em Léopoldvilli) e trasladou-se para Paris. Na capital
francesa, ajudado pelo advogado Jacques Vergès, comunista de tendência maoísta,
ele rumou para Beijing (Pequim) em busca de uma “cortina de ferro” que o
protegesse.
Na China as elites do Partido Comunista acolheram-no com
simpatia e admiração. Por ser uma personalidade vincadamente culta e um
revolucionário africano credor de grande respeito na roda das lideranças
pró-chineses em África, Brasil e Europa, Viriato impôs-se pelo encanto do seu
intelecto e pela força das suas convicções doutrinárias. Por reconhecimento
destes méritos as autoridades chinesas convidaram-no a trabalhar no Bureau dos Escritores
Afro-Asiáticos. Uma lua de mel que, em princípio, se contornou auspiciosa para
Viriato por se lhe oferecer o ensejo de contribuir para o avanço do movimento
revolucionário e libertador no mundo, notadamente no continente africano.
Neste entretempo o céu político da China toldou-se de sinais
ameaçadores. O país mergulhou num imenso lodaçal de conspirações palacianas sob
o signo da Revolução Cultural Proletária superiormente orientada pelo
“romanticismo revolucionário” de Mao Zedong e posta em prática pelos
ultraesquerdistas que o cercavam, os quais, agindo como tigres famintos,
conclamavam por um grande expurgo nas fileiras do Partido e das Forças Armadas.
Ninguém deveria ser poupado. Nem os «velhos camaradas em armas, [nem] os
colegas ou até maridos e esposas», conforme se pode ler na obra clássica do
historiador inglês Frank Dikötter, A Grande Fome de Mao. A História da
Catástrofe Mais Devastadora da China, (1958-62). Inúmeras figuras cimeiras do
regime, atingidas pela face negra deste delírio político, acabaram por ter os
seus nomes e reputação calcinados pela acusação de liderarem a “linha
revisionista e contra-revolucionária” do Partido (designada no jargão maoísta
por “linha reaccionária burguesa”) ou de a ela aderirem. Em paralelo com este furacão
desencadeou-se uma campanha anti-intelectualista justificada pela necessidade
de combater os vícios culturais burgueses.
Tanto quanto pude perceber da leitura de vários documentos,
Viriato gozava de um bom relacionamento político e intelectual com alguns dos
dirigentes amaldiçoados. No entanto, não tardou que os inquisidores do
selvagismo revolucionário também o enredassem num sem-fim de cabalas. Perdeu a
confiança das lideranças feudatárias do radicalismo doentio de Mao que o
confinaram numa espécie de quarentena ideológica, vigiado pelos orgãos de
inteligência e pelos guardas vermelhos, verdadeiros “cães predadores e
assassinos” do Partido. Até ao dia em que o removeram do hotel onde vivia
hospedado com a família e o emparedaram num gueto, um bairro periférico, a sul
da capital, totalmente isolado do contacto com estrangeiros, sujeito ao
desterro, à dor, ao medo e à pobreza e a todo o tipo de provocações e
brutalidades por parte dos jovens estudantes da Guarda Vermelha que o
humilhavam.
Um turbilhão de vexames e terrores, em que não faltou
espiolharem-lhe toda a correspondência epistolar. Agravado pela proibição de
sair da China. Uma exigência imposta pela força que o reduziu à mais abjecta
expressão da ignomínia, de prisioneiro perpétuo, sem crime algum, condenado a
viver numa terra que já não lhe era desejável e pela qual passou a sentir
repulsa. Tragicamente uma cadeia de horrores que desaguou na sua morte
inesperada a 13 de Junho de 1973 no hospital de Beijing depois de ali ser
abertamente maltratado pelo médico que o assistia, cuja conduta, do princípio
ao fim, se revelou típica de um indivíduo “provocador”, malsão e até
delinquente. Pouco antes de baixar à sepultura Viriato na cama do hospital
denunciou esta situação no último dos seus escritos, um precioso testemunho
(que já divulguei na minha obra, Agostinho Neto, O Perfil de um Ditador. A
História do MPLA em Carne Viva, vol. II, p. 1040), onde, sem nenhuma concessão
ao subjectivismo, ele aponta o facto de o médico estar a assassiná-lo.
Abominável o desprezo como os chineses trataram o seu
cadáver, eis outra crónica de horrores que se torna necessário recuperar um dia
para a memória de todos. Um flagrante vilipêndio sobre uma personalidade
estrangeira. Todavia, até ao momento, que se saiba, os historiadores em Angola
(e os africanistas em Portugal, Brasil e outros quadrantes) nada escreveram ou
fazem vista grossa sobre o trágico final de Viriato e sobre a hipótese do seu
envenenamento. De novo se tenta, do meu ponto de vista, exonerar Neto de responsabilidades
por tamanho desfecho calamitoso. Em 1971 ele visitou Beijing e assinou um
programa de reforço da cooperação dos chineses com o MPLA nos domínios da
assistência técnica e militar. Surpreendentemente a situação de Viriato piorou
– e de que forma – a partir dessa visita de Neto. Um cenário de grande
sofrimento, literalmente menosprezado pelo comportamento farsesco e criminoso
das autoridades chinesas e do próprio Neto.
À guisa de ilustração, e para responder aos meus objectores,
evoco de forma resumidíssima as palavras de Paolo Pasolini ante a explosiva
situação política da Itália na década de 1970 abismada pelos fantasmas do
terrorismo (massacres em Brescia e Bolonha), seguidos de uma série de golpes
neofascistas e antifascistas e por cruzadas anticomunistas enquanto estratégias
de protecção do poder de Estado. A propósito deste caldeirão de chacinas e
atentados, dizia então o poeta, romancista e cineasta italiano: «Eu sei o nome
dos responsáveis. Eu conheço todos os nomes e todos os fatos dos quais são
culpados. Eu sei. Mas não tenho as provas».
Acaso restarão mais dúvidas para se desmontar todo o
mistifório de versões falsas a respeito deste enredo? Neto estranhamente nunca
se empenhou em resgatar o seu compatriota (pai do MPLA) das fúrias apocalípticas
do maoísmo, mau grado as divergências que os separavam. Sem nenhum assomo de
dignidade humana, política e cívica alheou-se de tudo completamente e deixou
aos estrangeiros o ónus de acabarem com a integridade física de Viriato. Um
gesto passível de ser interpretado como sinal de entendimento macabro entre ele
e os dirigentes comunistas. Uma nódoa indelével cravada na história da luta
libertadora.
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