Pois é, meus caros, Abel Chivukuvuku, aquele eterno visionário da política angolana, decidiu mais uma vez mostrar-nos o verdadeiro sentido da palavra “coerência”... claro, no dicionário da política de ocasião. Depois de entrar na Frente Patriótica Unida (FPU) com pompa, discursos inflamados e promessas de “mudança histórica”, eis que, como quem troca de camisa (ou de coligação), anuncia a sua gloriosa saída. Bravo, Abel! Uma verdadeira aula de como entrar e sair de projectos políticos como se fossem táxis mal parados na Mutamba.
Aparentemente, o PRA-JÁ foi vítima – segundo o próprio líder – de “muito
sofrimento” dentro da FPU. Sofrimento esse, convenhamos, que não impediu os
flashes, as palmas e os discursos com pose de salvador da pátria. Mas agora,
num momento de renovada iluminação política, Abel percebe que é melhor seguir
“sozinho” – claro, sempre disposto a conversar se houver regras. Regras estas
que, curiosamente, só parecem importar quando o jogo já não favorece o seu
lado.
É fascinante assistir à flexibilidade do PRA-JÁ, um partido que, ao que
tudo indica, se move mais por correntes de vento político do que por convicções
ideológicas. Nas últimas eleições, a entrada na FPU foi claramente uma jogada
de sobrevivência e de manutenção da reputação. Afinal, quando se perde terreno
próprio, é sempre mais conveniente colar-se a outros para parecer maior. Agora,
com os olhos em 2027 e quem sabe uma nova oportunidade de ser protagonista de
palco (nem que seja na primeira fila do auditório), a saída estratégica é
anunciada como se fosse um gesto de autonomia política. Que ousadia!
Mas não sejamos injustos. Abel é, acima de tudo, um mestre da arte da
resiliência teatral: entra no palco, faz o seu número, lança promessas
grandiosas, faz um exit dramático e deixa o público na expectativa do próximo
acto. E nós, o povo, vamos assistindo ao espetáculo... porque política, em
certos palcos, não é feita com ideais, é feita com ensaios – e muitos replays.
Ficamos agora a aguardar a nova encenação de 2027: Abel “a solo”, talvez
com uma nova coligação “com regras”, ou quem sabe, de regresso triunfal à FPU
versão reciclada. Porque se há algo garantido na política do PRA-JÁ, é que nada
é definitivo – excepto a busca incessante por palco.
0 Comentários