Ah, Angola! Terra de mar, sol e… barricadas policiais. Mas não barricadas quaisquer! São autênticas estações alfandegárias do asfalto, onde os automobilistas são recebidos com a hospitalidade típica de um cobrador de dívidas. O objectivo? Combater o flagelo do álcool ao volante, claro! Mas não se enganem, não se trata de identificar condutores em ziguezague, travagens bruscas ou olhos de peixe morto. Isso seria demasiado subjectivo. Aqui, a ciência reina!
A abordagem é meticulosa. O agente, munido de um bafómetro de última geração (ou de última reanimação, porque aqueles aparelhos já viram melhores dias), interpela o condutor com a pergunta de um milhão de kwanzas: “Bebeu?”. Ora, o que responde um cidadão sensato?
– “Não, senhor agente, nem uma gota.”
Resposta errada. Sopre no bafómetro!
Mas e se disser a verdade?
– “Sim, senhor agente, bebi um copo de vinho ao almoço.”
Erro crasso. O bafómetro já não é necessário, porque a confissão basta para
abrir caminho à “resolução do problema” ali mesmo, ao lado da viatura, num
processo de justiça rápida e altamente lucrativa.
E depois vem a multa, esse tributo espontâneo cujo destino ninguém sabe ao
certo. Algures entre os cofres do Estado e os bolsos invisíveis. Um mistério
digno de um documentário da National Geographic. Mas, sejamos justos, se o
dinheiro dessas multas servisse para melhorar as condições da polícia –
dar-lhes fardas decentes, viaturas que não avariam a cada esquina e, quem sabe,
até bafometros que realmente funcionem –, talvez houvesse menos contestação. O
problema é que, feitas bem as contas, as barreiras continuam as mesmas, os
buracos nas estradas multiplicam-se e os agentes seguem com o mesmo ar de quem
não sabe se está ali para vigiar ou para facturar.
E enquanto a polícia mantém uma presença civilizada e impecavelmente
alinhada no centro da cidade, garantindo que ninguém ouse conduzir depois de um
sumo de maracujá mal fermentado, a Tia Maria, lá no bairro, continua a sofrer
com os ladrões que lhe roubam as botijas de catembas e caporroscas noite sim,
noite também. Mas, claro, isso não merece barricadas. O verdadeiro perigo não
está nos assaltantes que vivem da desgraça alheia, mas sim naquele pobre diabo
que bebeu um copo e decidiu conduzir sem declarar a própria culpa. Prioridades,
meus senhores, prioridades!
E assim segue o automobilista angolano para navegar entre buracos,
engarrafamentos e o verdadeiro desafio da estrada: as barricadas do esquadrão
do sopro. Que Deus nos proteja… e que o bafómetro esteja sempre avariado!
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