No solo seco e esquecido do Rivungo, província do Cuando Cubango, à fome não é apenas um adversário invisível, é a mão que ceifa vidas e destrói esperanças. Aqui, a morte encontrou abrigo nas ruas e nas matas, enquanto o silêncio cúmplice das autoridades transforma cada dia em uma luta desesperada pela sobrevivência.
por: redacção
Ngambela, morador do bairro Kavungo, foi enterrado no último
dia 9 de dezembro. Sua partida foi silenciosa, sem pompa, sem justiça. Nzita,
do bairro Katengo, sucumbiu a um gesto de desespero, comeu frutos
"impróprios" para à fome que o consumia. A diarreia, fruto do veneno
da pobreza, minou suas forças até que o coração parou.
Cinco delas, nos bairros Tchifuaku, Neriquinha, Kambala,
Muyau e Samatamo, encerraram suas actividades ainda no primeiro trimestre. No
Muyau, sequer houve força para concluir o período lectivo. Os alunos,
empurrados pela necessidade, deixaram a aldeia em setembro, rumo às ilhas do
rio Kwandu, em busca de frutos silvestres.
Os professores, resistindo ao abandono, adaptaram uma escola
improvisada na aldeia do ChoCho, onde leccionam sob a sombra das árvores. A
vergonha da má governação Enquanto o povo do Rivungo luta por sua
sobrevivência, a liderança municipal e Províncial parece alheia ao sofrimento.
O administrador, João Wilson Tchimbinde, segundo as
autoridades tradicionais e moradores, abandonou o compromisso com os mais
vulneráveis. Seu título de “Doutor”, rejeitado por muitos por falta de mérito,
é símbolo de um Governo que ignora as chagas da fome.
Quando questionado o
porquê da não existência de projectos no Município, o governante justifica os
seus desvios e a incompetência, respondendo que nunca recebem dinheiro quando
todo mundo sabe que o OGE é extensivo para todos as unidades orçamentais e ao
Rivungo tem chegado dinheiro. O actual administrador municipal nunca esteve
preocupado com as mortes das pessoas, até aqui não se deslocou em nenhuma
comunidade para constatar o que realmente se passa, manda seus subordinados.
"A vida é sempre estar em Menongue, outras paragens e quando está aqui no
município, divide-se entre palácio, Administração e Partido para reuniões que
levam quase o dia inteiro", denunciam.
No passado, antes do senhor chegar ao Rivungo, o município
floresceu. Pólos agrícolas prosperaram e a terra produziu cereais suficientes
para alimentar à população e ainda exportar para regiões vizinhas. Até mesmo a
praga de gafanhotos, que assolou a zona, não conseguiu parar o avanço.
O Rivungo era um exemplo de resiliência e esperança. Hoje, no
entanto, o que resta são campos vazios, aldeias desertas e um povo à mercê da
morte. O Clamor da Terra João Munuma Kakundunkundu, regedor municipal, já
perdeu cinco familiares para a fome. Sua dor ecoa como um grito de desespero,
pedindo acção onde só há indiferença.
"Não podemos continuar assim. Estamos a morrer", é
o apelo de quem já não vê saída. O Rivungo chora suas perdas, e suas lágrimas
se misturam ao clamor por justiça, por humanidade, por compaixão. É um apelo ao
Governo, às organizações humanitárias, ao mundo, salvem o Rivungo antes que ele
desapareça.
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