Nos Ăºltimos anos, a UNITA, o principal activo agregado como Ă© natural, tem procurado construir um perfil menos violento do seu lĂder histĂ³rico, promovendo um conjunto de facetas positivas de Jonas Savimbi.
Apesar de morto, a UNITA continua a precisar muito da imagem de Jonas Savimbi, que continua a ser activo e elemento agregador das bases do partido.
Para isso, o maior partido da oposiĂ§Ă£o vende a narrativa de um Savimbi que anteviu a mĂ¡ governaĂ§Ă£o do MPLA e de um nacionalista a quem se deve a democracia do paĂs, ainda que muitas vezes a mesma UNITA afirme quando convĂ©m que vivemos em ditadura.
Perante essa acĂ§Ă£o de "branqueamento” da imagem de Jonas Savimbi, ninguĂ©m reage. Nem mesmo o MPLA, absorto nos problemas da governaĂ§Ă£o, nem figuras da sociedade que, insatisfeitos com a governaĂ§Ă£o, temem que realçar o efeitos da guerra de Savimbi possa parecer uma desculpabilizaĂ§Ă£o dos erros da governaĂ§Ă£o cometidos pelo MPLA.
Com documentĂ¡rios, livros, divulgaĂ§Ă£o de extractos de discursos e entrevistas e muita acĂ§Ă£o polĂtica, a UNITA alega a necessidade de desmistificar muitas inverdades e para desencadear essa grande campanha que passa, por um lado, por colocar Jonas Savimbi ao lado de Agostinho Neto e Holden Roberto, o que Ă© historicamente legĂtimo, mas tambĂ©m por realçar a contribuiĂ§Ă£o positiva para o fim do monopartidarismo.
E assim, num Ă¡pice a guerra pĂ³s-eleitoral feita pela UNITA sob liderança de Jonas Savimbi deixou de ter qualquer peso na avaliaĂ§Ă£o da governaĂ§Ă£o nos 30 anos de democracia. A mĂ¡quina propagandĂstica da UNITA e o excessivo da justificaĂ§Ă£o com a guerra pelo MPLA criaram uma situaĂ§Ă£o de saturaĂ§Ă£o e, hoje, mais ninguĂ©m quer ouvir falar das consequĂªncias da guerra pĂ³s-eleitoral, como se elas tivessem desaparecido com uma varinha mĂ¡gica.
Jonas Savimbi recusou-se a aceitar os resultados eleitorais e decretou o renascer da guerra civil para tomar o poder pela força. Os confrontos entre o Governo e a UNITA sĂ³ cessariam apĂ³s a morte de Jonas Savimbi. Entre 1992 e 2002, a guerra teve uma intensidade muito superior do que no perĂodo do monopartidarismo. Mais de 500 mil pessoas morreram e mais de um milhĂ£o foram deslocadas internamente. Dois terços do paĂs chegou a estar sob ocupaĂ§Ă£o da UNITA, ao que se seguiu uma grande destruiĂ§Ă£o de infra-estruturas de Angola, desactivaĂ§Ă£o de toda a AdministraĂ§Ă£o PĂºblica e produĂ§Ă£o econĂ³mica.
Aos jovens e Ă s futuras gerações vende-se a ideia de um Savimbi "quase santo” que foi morto em combate, omitindo-se deliberadamente todo o percurso errĂ¡tico do lĂder da UNITA, marcado por alianças com o colonialismo portuguĂªs, com o regime boer da Africa do Sul e pelo retorno Ă guerra depois das eleições de 1992.
No que toca Ă imagem de Jonas Savimbi, o desafio serĂ¡ sempre o de ver reconhecido o trabalho ideolĂ³gico e polĂtico feito com a criaĂ§Ă£o da UNITA e da sua transformaĂ§Ă£o no que Ă© hoje e, ao mesmo tempo a aceitaĂ§Ă£o dos inĂºmeros erros cometidos por Savimbi, entre os quais, o mais grave, a destruiĂ§Ă£o do paĂs na tentativa de alcançar o poder. A paz sĂ³ foi possĂvel com a sua morte e esta Ă© uma realidade indesmentĂvel e nĂ£o o caracteriza como um defensor da democracia. Num percurso de tantos anos hĂ¡ obviamente facetas e etapas que agora se procuram omitir ou atĂ© dar uma nova versĂ£o como sĂ£o os casos dos seus discursos inflamados contra os adversĂ¡rios, a sua apologia ao tribalismo e o modo sanguinĂ¡rio como se livrou de opositores internos.
A UNITA precisa de vender essa imagem vencedora e ganhadora de Jonas Savimbi para continuar a ter a sua figura como o centro unificador do partido e aquele cuja vida dĂ¡ sentido e propĂ³sito de milhares de angolanos que acreditaram na conquista ao poder pela armas. Depois de anos a fio a acreditar que a rebeliĂ£o armada lhes levaria ao poder em Luanda, o maior partido da oposiĂ§Ă£o precisa de manter as suas bases unidas ao ideal de JMS, sem assumir a derrota militar sofrida, nem admitir o erro histĂ³rico da opĂ§Ă£o. Pelo contrĂ¡rio, transformaram ambas num sacrifĂcio pela democracia em Angola.
O facto de, no momento mais frĂ¡gil do MPLA, a UNITA nĂ£o ter conseguido nas Ăºltimas eleições capitalizar o voto da insatisfaĂ§Ă£o com a governaĂ§Ă£o, a ponto de nĂ£o ter ganho as eleições, e o facto da abstenĂ§Ă£o ter atingido o maior nĂºmero pode ser um indicador de que o impacto do passado de guerra e da imagem de JMS sobre as gerações mais velhas.
Permitir que a UNITA faça Ă vontade, sem oposiĂ§Ă£o nem contraditĂ³rio, todo o branqueamento da imagem de Savimbi junto dos jovens e das gerações do futuro Ă© algo que, sem dĂºvidas, o MPLA vai pagar caro.
Ă€ medida que o tempo nos vai distanciando do fim da guerra, menos impacto terĂ¡ qualquer justificaĂ§Ă£o com essas consequĂªncias. Mesmo assim, um dia alguĂ©m vai se fartar desse branqueamento e vai revelar aos jovens os discursos inflamados com apelo Ă morte de outros angolanos ou as decisões militares que jĂ¡ depois das eleições multipartidĂ¡rias empurraram milhares de jovens para uma nova guerra, de novas mortes, mutilações e destruiĂ§Ă£o de bens e infra-estruturas que hoje estĂ£o a ser reerguidas.
Ante os "gritos dos maus” por quĂª se calam as instituições do Estado,
os "bons” e os prejudicados por Jonas Malheiro Savimbi e que se mantĂªm na
UNITA?
0 ComentĂ¡rios