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Príncipe dos Dembos: “Somos protegidos por Deus e pelas sereias”

 Félix João Fula, seu nome de registo civil, é filho de Francisco Fula e de Eva Capemba. Nasceu no dia 26 de Setembro de 1966 no bairro Kipungo, comuna de Quibaxe, município dos Dembos. Ele é Sua Alteza Príncipe dos Dembos e abriu as portas do Lumbo (“sala de visita”)

Na entrevista que nos concedeu fala abertamente dos mistérios e da realidade antropológica e social dos povos dos Dembos.

Quem é o novo Príncipe dos Dembos?

Sou Dom Félix João, Príncipe dos Dembos, amigo de todos, uma pessoa que sabe entender os problemas da comunidade.

Como chegou ao lugar que ocupa hoje?

Cheguei ao principado por fazer parte da linhagem real. Os meus pais e tios foram sobas e Dembos. Eu trabalhava numa empresa de segurança no posto do BPC em Quibaxe. Primeiro fui contactado para ser o Mé-Nemassa, que significa o adjunto do príncipe. Foi assim que entrei na corte, trabalhando com o falecido Príncipe desde 24 de Setembro de 2021. No dia 1 de Outubro, o velho Príncipe acaba por falecer e aos 6 de Outubro do mesmo ano passei a interino. No dia 26 de Maio de 2022, fui eleito Príncipe dos Dembos e tomei posse aos 17 de Dezembro. Fui ungido tradicionalmente através de uma comissão chamada PunguIcatende.

 A eleição foi consensual?

Sim. Foi preciso entrar em consenso a nível de todo o município dos Dembos, para se ver se eu estava em condições de ser o Príncipe ou não. Fui eleito por 90 por cento dos mais velhos.

Como sabe que a Vossa eleição foi consensual a nível dos sobas e Dembos?

Eles já se haviam reunido. Estiveram presentes[na reunião] um dos meus filhos e os meus tios, irmãos do meu pai. Eles saíram com a recomendação para não falarem nada, senão teriam problema. Primeiro rejeitei, tinha receio de ficar no meio dos mais velhos. E avisei:"se eu morrer com o feitiço desses mais velhos, vocês serão os culpados”.  Eles disseram-me para ter calma,que era preciso estar preparado espiritualmente. Eles vieram outra vez e disseram que já tinham andado muito, os mais velhos que encontraram não estavam disponíveis e tinha que ser mesmo eu. Precisavam tirar o luto do falecido Príncipe e o lugar não tinha que ficar sem ninguém. Voltei a negar e disse "aqui tem muitos mais velhos”, eles disseram-me "nós os mais velhos escolhemos mesmo você”. Fui aceite por 90 por cento dos mais velhos.

 Qual é a relação que tem com os sobas?

Muito boa. Como digo sempre, tenho a protecção dos sobas, se não tivéssemos boa relação eles mesmos me dariam cabo. Mas não, são mais velhos que eu encontrei de mãos abertas para me ajudar, são os meus conselheiros, meus instrutores, estamos todos num só prato, "tuanambuigitudilexindedimoxi”, quer dizer, somos todos irmãos, filhos da mesma mãe, comemos num só prato.

 Como é feita a cerimónia de entronização do Príncipe?

É feita em duas partes. A primeira chama-se Mutondo, é a cerimónia tradicional, com abertura às zero horas e termina às 10 horas da manhã. Paga-se o Mutondo, que são alguns produtos necessários para oferta, que inclui roupas, comida preparada numa zona desértica ou despovoada, onde pode estar um grupo de quatro a seis pessoas. A comida deve incluir vinho, maruvo, cerveja, carne de porco, cabrito e galinha.

A segunda parte inicia às 12 horas da tarde com o Muzula, que é uma marcha tradicional de celebração para ungir o Príncipe. Ele é ungido com um produto que nós chamamos Jipemba. Nas igrejas, é água benta, nós aqui chamamos Jipemba.

Quem pode ungir o Príncipe?

São cinco autoridades tradicionais que constituem a corte máxima do principado, chamadas KumbuIcatende. Na política, comparamos com o Bureau Político, com as devidas categorias, designadamente, Mé-Mpungo, Mé-Katende, Mé-Nkiama, Mé-Nkuma, Mé-Kapandanda, Mé-Nembaji. Esses sim têm toda autoridade para ungir o Príncipe. Mas o Príncipe tem autoridade sobre eles, pode destituir um deles quando for necessário.

Após a tomada de posse do Príncipe é possível o destituir?

Sim, é possível, mas tem de haver um excesso de erros. Deve ser advertido por cinco vezes, caso não acatar as  advertências, logo é exonerado do cargo de Príncipe, através de uma assembleia da corte. Caso a assembleia decida que os erros cometidos pelo Príncipe são imperdoáveis, é-lhe aplicada uma multa para pagar pelos danos e logo é exonerado.

 Como é paga essa multa?

A multa é paga com o Disame, é um valor monetário acompanhado com um animal, bebidas, óleo, sal e cebola. O dinheiro é colocado em cima das coisas.

E se não tiver o Disame o que é feito dele?

Ele é obrigado a ter o Disame para pagar todas as condições, por isso é que a família deve reunir contigo antes de assumires esse cargo, porque é de muita responsabilidade.

 É perigoso ser Príncipe  dos Dembos?

Só é preciso ter muita cautela, mas não é perigoso. Se você adulterar o regulamento que lhe deram, o problema é seu. O regulamento é difícil de cumprir, por exemplo,você não pode ter namorada e deve ter apenas uma mulher. Para ter uma segunda esposa, é preciso autorização da corte e negociar com a mesma.

"O nosso feitiço é o poder tradicional”

 A poligamia é costume dos africanos, porquê o Príncipe deve ter apenas uma mulher?

Já foi diferente no passado, quando o Príncipe tinha que ter cinco mulheres. Mas hoje já não. Só o facto de às 19 horas estar  junto a casa de uma senhora é considerado crime. Toda a minha deslocação, deve-se justificar os motivos.


 Justificar a quem?

Justifico aos Mé-Kasanda.É um grupo de três pessoas, o trabalho deles é acompanhar o Príncipe em todos os lugares para onde vai, mesmo até à cantina. Não sou proibido de beber, mas não posso estar exposto. Para sair, às vezes, tenho de dar uma fugida, se eles me virem, até podem fingir que não viram, só não pode ser rotina.

 Com todo o respeito, Sua Alteza, é preciso ter feitiço para ser o Príncipe dos Dembos?

Não tenho feitiço. Muitos dizem que temos de ter feitiço, mas não. O nosso feitiço é o poder tradicional que recebemos. Na hora de ungir o Príncipe, há um segredo, aquela poeira que dão é o tal feitiço, mas não precisa ser feiticeiro. Existe sim o feitiço, mas também existe o poder tradicional, o que nós temos é o poder tradicional.

 E quando surge um feiticeiro quem protege o Príncipe?

O feiticeiro pode vir contra mim, mas vai encontrar a resposta. Eu estou aqui pelo poder tradicional, não por intermédio do feitiço, não tenho feitiço, nós somos protegidos por Deus e as Ninfas que são as sereias, elas trabalham junto de nós. Até os sobas que cumprem com os deveres são protegidos pelas sereias. Elas são espirituais, invisíveis. Não sei se já viu as festas que fazem no mar? Então, nós pertencemos a isso, falamos com essa gente.

 Como conversam? Conversamos espiritualmente. Elas ouvem as vossas vozes?

Sim, ouvem. Por exemplo, se vier aqui alguém que tenha um problema para resolver e traz a bebida, pegamos o Mé-Nembaxi, que também já passou por esse processo, que fica na rua, chama todos e avisa as Ninfas (sereias), para que fiquem atentas porque recebemos um problema para resolver.

 Depois da consagração, o que recebe dos sobas?

Eu também recebo a protecção dos sobas no acto do empossamento. Aquela pemba que eles dão, fazem um segredo no chão, aquela poeira que dão é a pemba, o tal feitiço. E pronto, aí temos a protecção.

O que recebeu como símbolo do poder?

Primeiro recebi o bastão, que é o símbolo do poder, o bastão chama-se Mbassau. Ninguém sabe o que meteram no bastão quando os mais velhos fizeram. O Mbassau não é qualquer pessoa que anda com ele, o que temos vem dos nossos antepassados. Também recebemos o chapéu que nós chamamos de Kibetete e a batina que se chama Kapote. É a roupa do Príncipe para as cerimónias.

Qual é a designação da mulher do Príncipe? Sua Alteza pensa ter mais do que uma esposa?

A primeira mulher do Príncipe chama-se Mé Mbanda. Se tiver a segunda será chamada Me Wala. Estou para arranjar mais uma mulher, já pedi a permissão (risos).

Desde que chegou ao lugar qual foi o primeiro problema que resolveu?

O primeiro problema que resolvi, ainda como Mé-Nemassa, foi o adultério de um jovem. Foi muito difícil. O segundo problema foi de feitiçaria. Como os mais velhos dizem, problema de feitiço não se discute. Quando há uma acusação de feitiço, temos de encontrar a solução através da tradição, cada um entre as partes encontra duas testemunhas e com a permissão dos sobas vão a procura de um kimbandeiro. E onde forem, se o kimbandeiro confirmar que o acusado é mesmo o feiticeiro, devem trazer a informação ao Dom Príncipe. Essa informação não deve ser reportada por um membro da família dos contendores, mas sim pelas testemunhas. Só assim encontramos a solução, apesar de que algumas pessoas se identificam mesmo como feiticeiras.

E os identificados como é que são tratados? Eles sendo feiticeiros podem conviver aqui normalmente?

Depende da família. Há famílias que são vingadoras. Se o tio é identificado como feiticeiro, que já matou muita gente, elas procuram um kimbandeiro para matar também essa pessoa.

 Tem kimbandeiro especialista em matar?

(Risos) Tem, sim. E é na hora.

 Se a pessoa não  for feiticeira ou a culpada, o feitiço actua?

Não. Se não for, não actua. Mas quando matam, fazem-no ou com uma doença ou com trovoada, que nós chamamos nzagi. Com pouca chuva, um serenozinho e o nzagi mata.

 Como conseguem diferenciar a trovoada de feitiço da trovoada normal?

Nós conseguimos dar conta. Quando atrovoada é enviada por feitiço, para matar, ela procura o acusado, se ele não estiver entre nós faz um estrondo e todos ficamos a correr e a tremer, e procura lugar para escapar. Mas se o acusado estiver entre nós queima mesmo e o acusado morre.

Já visitou o Reino do Kongo?

Falta apoio do Governo provincial em termos administrativos,de transporte e financeiro. Com ajuda é possível, nós não temos condições financeiras nem de transporte. A corte já esteve lá em 2008, com o falecido Príncipe, levamos valores e um bom apoio do Governo, naquela altura.

Em termos de jurisdição, qual é o limite do Vosso território?

O nosso limite é até ao município do Bula Atumba, mas no passado os Dembos chegavam até ao Ambriz, incluía Nambuangongo. Com a chegada dos portugueses, foram diminuindo as fronteiras. Os portugueses quando chegaram tinham o objectivo de cortar os contactos com os reis. Actualmente, temos a fronteira até ao rio Longe e ao Sul com o rio Nzenza. Tradicionalmente, a zona do Pango Aluquém também é controlada pelo Dom Príncipe dos Dembos.

O que significa Dembos?

Deriva de uma palavra em Kimbundu, é um produto da medicina tradicional para protecção. Recolhem-se várias folhas com um conjunto de raízes que são trituradas num recipiente e misturadas até o formato de uma bola. É a isso que se chamava Ndembo. A palavra evoluiu para Dembos, que também significa terras dos reis.

 

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