Nunca antes, alguém tinha tocado maliciosamente na memória que representa o Liceu de Benguela. Os senhores foram os primeiros.
Várias guerras passaram em seu redor, os carcamanos o sobrevoaram em 1975 e
mandaram para a cidade bojardas de canhões oito-oito, por cima da sua
cobertura. Os cubanos, com os seus tanques soviéticos passaram ao lado. O
Liceu sempre foi poupado. Ele permaneceu incólume como o mais forte dos
embondeiros perante todas as vicissitudes.
O Liceu de Benguela tornou-se, por razão própria, um dos ícones sagrados da cidade “Mae-das-cidades. É uma das referências subsistentes, que tem resistido a conspurcada mudança dos tempos. Ganhou, por resiliência própria, a privilegiada honra das marcas que resistem ao tempo e , por via disso, se tornaram genuínos símbolos da singular idiossincrasia benguelense.
Ontem foi Sábado e hoje é Domingo. São os primeiros dias do mês de Junho de
2024. E começaram mal. Chegaram notícias tristes de lá, que nos abalaram
profundamente, e para as quais procuramos respostas urgentes, ao menos para
acalmar o nosso partilhado sentimento de repulsa, se for o caso.
O assunto é que, na quinta-feira passada, em pleno período de aulas,
defronte ao Liceu de Benguela, elementos organizados para o efeito, montaram um
arraial com barracas para venderem pinchos e bebidas alcoólicas, alusivos para
saudar um não-sei-quem.
Existem fotos e vídeos da festança a céu aberto. Bebeu-se desalmadamente em
dois dias, até ao amanhecer. Foi proporcionado kuduro perverso em volume 45, ao
longo de duas noites consecutivas. O pessoal bebeu ao limite e foi mijando
copiosamente na área dentro do parque do liceu, nos mesmos bancos de pedra,
protegidos por acácias alfarrobeiras, onde se sentou, ao longo dos anos, desde
a sua fundação, toda a intelectualidade benguelense.
Antigamente designado Liceu Nacional Comandante Peixoto Correia, foi
inaugurado no dia 15 de Maio de 1967, por portaria de 9 de Abril de 1966, que
marcava o aniversário da Batalha de La Lis, que rezava assim:
“A designação de patronos para obras de vulto, com o objectivo de se
prestar condigna e duradoira homenagem a individualidades cuja vida de trabalho
estrénuo e de abnegado sacrifício em prol do engrandecimento da Nação foi exemplo
para contemporâneos e vindouros, constitui princípio salutar e eminentemente
patriótico, já consagrado por longa tradição em todas as parcelas do território
nacional.”
Após a proclamação da independência nacional, o Liceu recebeu o nome de
“Comandante Kassanji” para homenagear um antigo estudante da instituição e
ilustre combatente do MPLA, desaparecido em combate contra o exército do
apartheid então vigente na Africa do Sul.
Debaixo daquelas árvores frondosas, sentaram alguns dos melhores
professores, directores, estudantes e cidadãos que alguma vez existiram em
Angola.
Pelo Liceu de Benguela, passaram, em diferentes épocas, várias gerações de
benguelenses. Ter um filho a estudar no liceu, era um orgulho para qualquer
família de Benguela, incluindo várias famílias africanas.
No Sábado e Domingoaconteceu o Inacreditável!
Noctívagos altamente embebedados, urinaram a nduta e copiosamente pelos
outrora verdejantes jardins e pelas paredes do Liceu, que sempre foram local de
são convívio e estiveram sempre pintadas com o eterno tom de rosa porcelana.
Entre os dois ginásios, nos quais treinámos e suamos as estopinhas nas mãos
dos professores Baião, José Rocha e Eurico , rolou álcool barato, para homens,
mulheres e até crianças, toldados pelos descontrolados decibéis do estrondo do
que agora chamam música. A vizinhança da rua Damas de Moura reclamou sem
sucesso, os vidros das janelas e cristaleiras a balouçarem durante a noite
inteira.
Profanaram um sagrado lugar, de múltiplas e benfazejas memórias, justamente
ali, onde se cultivou, com dedicado e incondicional amor o estudo, a
curiosidade, a solidariedade e a honra por tudo o que de mais singelo Benguela
teve e tem. Para isso ainda continuamos nessa luta, mesmo que já faltem as
forças, por tantos anos dedicados à causa.
Onde repousa, afinal, a alma da gloriosa Benguela teimosa e genuína, que
nos tornou pessoas válidas para uma pátria conciliada e redentora, mas que tem
sido sucessiva e incompreensivelmente adiadas? Afinal quem é o regente desta
orquestração, que aos ouvidos sensatos prejudica?
Liceu de Benguela que, no dia 25 de Abril de 1974, se revelou como um
alfobre de jovens patriotas conscientes, manifestando-se contra as atitudes
rotuladas de fascistas de um suposto membro do Partido de Oliveira Salazar, o
Senhor Reitor José Vargas Pecegueiro.
Foi quando os primeiros meninos negros da cidade, foram calcar os degraus
para os dois andares, para as salas do terceiro, quarto, quinto, sexto e do
sétimo anos, com o objectivo de encontrarem professores distintos como Sócrates
Daskalos, Teixeira Pinto, padres Cardiga e Calças, Ruy de Almeida,, Mirtó,
Aguinaldo Branco, Fátima Baptista, Alexandrina Mangas, Madalena Afonso, Helder
Lucas e outros.
Liceu de Benguela, por onde passaram as meninas mais prendadas da nossa
amada cidade. Estudantes que, mais tarde se destacariam em várias esferas da
vida, como Mario Duarte, Rui Ferreira, Rosário Bragança, Luís Kandjimbo,
Felisberto Moreira Bastos (Fiuza) José Guerreiro, Fernando Ferreira Pinto, Pais
Pinto, Beto Teixeira, Jorge Caratao, L Kiki Guerreiro, Antonio Assis
(Ximbika), Edmundo, Luís Testa, Os irmãos Mangas, que mais tarde seriam
professores.
Onde primeiramente se sussurraram nos cantos do recreio, os revolucionários
poemas de Agostinho Neto, após o 25 de abril de 1975. Onde foram organizadas as
memoráveis brigadas de estudantes negros, brancos e mestiços que partiram
alegremente de comboio para a campanha do café na Chikuma e Babaera, em 1976.
Para onde fomos transferidos nós, os da Escola Industrial “Venâncio
Deslandes”, por força da primeira reforma educativa do ministro Ambrósio
Lukoki., que acabou com os curdos industriais e comerciais, e até de
dactilografia e formação feminina, que damas tão prendadas formou. Meus colegas
Jorge Dambi (RIP) , António Jaime Pinto e tantos outros grandes.
Não existem dúvidas que, desta vez, algumas pessoas foram longe demais!
Parece não existirem limites quando o assunto é receberem dinheiro sem RUP e
alienação sem limites.
Em 1976, dentro do anfiteatro desse icônico liceu, em cujas paredes os
bebados ontem mijaram que se fartaram, em pleno desrespeito a um dos últimos
ícones da nossa cidade, foi onde o comandante Dimbondwa, Comandante da Força
Aérea de Angola, fez um sagrado
pacto com a juventude benguelense:
-“ Vocês, são os que tem mais estudos e maior consciência política, neste
sentido, o camarada presidente Neto vos pede para serem voluntários para mandar
para a Rússia para serem pilotos da força aérea de Angola independente, para
sermos capazes de defender o nosso país”.
Benguela aceitou o repto do camarada Neto: Romão Chavonga, Luís Kandjimbo,
Humberto Abrantes, Vitor (Jibóia), João Firmino, Kiteko Ferrão, Franco Correia,
Silvestre (Inho), Hermenegildo Correia, Macuto, Tony Gordo e tantos outros.
Alguns para os helicópteros e Mig, outros para a defesa anti-aérea, outros
ainda para os Comandos. Muitos yomabae a cumprir o sagrado dever.
Não faz sentido ir a casas alheias falar do resgate da moral e dos bons
costumes vestidos de maluco. Porque razão escolheram o liceu? Tinham tanto
lugar para dar uma farra e quantas maratonas quisessem, porque razão decidiram
macular um templo sagrado, como o Liceu de Benguela?
Será que prevaricando assim, sentem algum prazer, ou vos mandaram apagar,
por puro sadismo, o que é parte de uma história e de várias vidas, hoje
dispersas pelo mundo?
Rejeitamos categoricamente o que representa uma decadência dos valores que
edificaram so longo de décadas a una alma benguelense.
Se não respeitam o que é sagrado para as comunidades, como pensam ganhar as
eleições para as autarquias? são muitas perguntas que permanecem no ar. Por
enquanto ficamos por aqui. Mas de uma coisa é certa:
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