A Autoridade Reguladora da Concorrência (ARC) de Angola considera que há presença “excessiva” do Estado no setor das telecomunicações, uma “realidade desfavorável” à promoção da liberalização do mercado e que desincentiva o investimento no setor.
Num estudo realizado sobre a concorrência no setor em Angola, a Lusa teve hoje acesso, a ARC constatou várias preocupações concorrenciais, nomeadamente de natureza estrutural e legal.
Entre as
“preocupações” de natureza estrutural, aponta o elevado grau de participação
direta do Estado, elevado nível de integração vertical e horizontal no mercado,
barreiras relativas à implementação do Regulamento de Partilha de
Infraestruturas de Comunicações Eletrónicas, alto nível de concentração no
mercado e acordos de exclusividade e venda em pacotes no segmento de TV por
subscrição estão
No estudo,
que compreende o período entre 2014 e 2021, a ARC realça que apesar da presença
de diversos operadores no mercado de telecomunicações, “é notável a
participação ativa do Estado”, tanto por via de empresas públicas que integram
a estrutura acionista de outras empresas do setor, como é o caso da Unitel e da
Movicel.
O Estado é
acionista da Movicel e da Unitel por via da detenção de participações sociais
de 25% do capital titulado pelo Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) e
das participações sociais de 50% detidas pela Sonangol, recorda.
A Autoridade
Reguladora da Concorrência assinala também a posição de destaque da MS Telcom e
da Angola Telecom (empresas públicas) nos segmentos de telefonia fixa e de
internet fixa na estrutura acionista da Unitel e da Movicel, respetivamente,
O facto das
referidas empresas serem detentoras de infraestruturas, incluindo o Last Mile
(última parte do transporte de um produto) e, por outro lado, o facto de a
concorrência no mercado de telefonia móvel e fixa ocorrer essencialmente entre
empresas cuja participação social é detida maioritariamente pelo Estado são
realçadas como fatores que “beliscam” a concorrência.
“Este
cenário é desfavorável à liberalização do setor, na medida em que diminui o
incentivo das empresas privadas em acederem ao mercado, pelo facto de terem
como concorrentes operadoras detidas pelo Estado”, observa a ARC.
O atual
cenário pode provocar efeitos negativos sobre a concorrência, “tendo em conta
que é um segmento de atividade económica de capital intensivo, pelo que as
empresas detidas pelo Estado estarão sempre em posição de vantagem, sobretudo
no âmbito de processos de recapitalização”.
Além disso,
a intervenção do Estado no mercado de telecomunicações, através de empresas
públicas e da estrutura acionista de empresas com capital misto, “que, por
sinal, dominam o mercado, tem potencial para distorcer a concorrência”, alerta
a entidade reguladora, considerando que isso pode colocar “as operadoras
privadas em desigualdade”.
O
Departamento de Controlo dos Auxílios Públicos, órgão da ARC que elaborou o
estudo, assinala igualmente que a presença excessiva do Estado no setor das
telecomunicações inibe a sua liberalização e contraria aos princípios que
nortearam a criação do Programa de Privatizações (ProPriv) do Governo angolano.
Por esta
razão, argumenta, “é necessário assegurar a redução da participação direta do
Estado no mercado, especialmente o das telecomunicações, enquanto objetivo
norteador do ProPriv, tendo como propósito limitar o surgimento de monopólios,
garantir a liberalização do mercado e, consequentemente, aumentar a
competitividade entre as empresas”.
A “presença
excessiva” do Estado no mercado “constitui uma realidade desfavorável à
promoção da liberalização do mercado, desincentiva o investimento no setor”,
sustenta.
“Sobretudo,
pelo facto de tais empresas terem como concorrente o próprio Estado, que atua
em situação de conflito de interesses, sendo simultaneamente operador de
mercado e regulador”, indica.
A ARC
recomenda ainda ao Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e
Comunicação, que tutela o setor, e ao INACOM, enquanto regulador, assegurarem a
redução da participação direta do Estado nas telecomunicações, por intermédio
da saída do capital acionista das empresas públicas de telefonia móvel, “de
modo a contribuir para o aumento da competitividade entre as operadoras, bem
como o fomento da cultura de sã concorrência”.
Aos
referidos órgãos é também apontada a necessidade de garantirem que as empresas
públicas deixem de integrar a estrutura acionista dos operadores que atuam nas
diferentes fases da cadeia de valor do mercado, como forma de melhorar o
funcionamento do setor e promover o incentivo à entrada de novos operadores
privados.
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